Entrevista Daniel Marques Tribo Skate 254 What's Up

Entrevista com Daniel Marques, Tribo Skate 254


Capa e artigo especial na edição impressa 254, de julho e agosto, a dupla Daniel Marques e Andre Calvão também preparou conteúdo complementar e exclusivo pro site.

Entrevista Daniel Marques Tribo Skate 254

(Andre Calvão)

Confira entrevista e fotos de Daniel Marques!

Qual sua primeira memória que se refere ao skate?

Daniel Marques: Tem uma foto no álbum da família que estou com um skate tubarão, na garagem de casa, amarradão. Devia ter uns três, quatro anos de idade! Talvez esse foi o primeiro contato, mas não me lembro desse dia (risos). Tenho na memória ver esse skate em casa já com uns seis, sete anos talvez. Era do Batman, não me lembro em cima dele.

Um pouco depois meu irmão mais velho andou uma época e lembro dele falando sobre ollie e ‘ollieflipper’, me interessei um pouco porém só quando tinha de dez pra 11 anos que quis mesmo ter um skate porque era começo da quinta série e os amigos que estava fazendo na classe andavam de skate.

Um dia que fomos pra praça jogar bola e eles todos foram de skate pelas calçadas. fiquei com muita vontade de ter um. Depois, pegando emprestado e aprendendo a ficar em cima e remar, fiquei com mais vontade ainda. Tem um outro detalhe que me lembrei esses dias: com uns sete, oito anos; por aí, quando saía de carro ficava olhando pela janela imaginando como se estivesse numa fase desses jogos tipo Sonic ou Donkey Kong (risos).

A brisa era que eu ia correndo pela calçada na mesma velocidade do carro e tudo que ía aparecendo eu tinha que pular, desviar, dar um jeito de passar por sacos de lixo, poste, pessoas, etc. Talvez esse foi um relance do skate também, que é bem como andamos na rua com ele.

Entrevista Daniel Marques Tribo Skate 254

Arquivo pessoal

Entrevista Daniel Marques Tribo Skate 254

Arquivo pessoal

Você se lembra da época em que a ideia de viver de andar de skate se tornou algo mais substancioso?

Daniel Marques: Foi numa época de amador que estava na atividade forte, filmando pra um vídeo, fazendo fotos, viajando, andando todo dia, com patrocínios dando um suporte. Isso tudo começou a proporcionar uma projeção que seria possível passar pra profissional e ter uma condição legal pra continuar fazendo o que já estava fazendo. Só aí me pareceu começar a tornar mais substancioso, porque pra mim sempre foi uma parada muito incerta viver do skate.

Até fazia faculdade e achava que a qualquer momento iria começar um estágio e dali por diante o trabalho iria tomar mais conta. Eu sempre vivi a parada muito intensamente, ia pros campeonatos, andava muito de skate todo dia, sentia vontade de filmar e tal, mas era muito pelo fazer da parada e pela paixão que tinha. Eu tinha uma autoestima bem baixa então não me imaginava no nível que achava que quem vive de andar de skate tinha que ter. Então fui só fazendo e as coisas foram acontecendo.

E mesmo que o objetivo final não era viver de andar de skate, eu estava sempre projetando, imaginando situações, viagens, andando em tal pico. Se conseguiria andar lá, fazer algo e até me sentindo nas paradas acontecendo, era meio na inocência e observando as pessoas que já viviam mais do skate e analisando. O tempo foi passando e quando foi ver já foi!

Qual sua opinião sobre um adolescente tomar esse certo tipo de decisão? Considera perigoso e de difícil decisão?

Daniel Marques: Vou responder primeiro a segunda pergunta citando um trecho de um livro que estava lendo esses dias: “Cuidado! Todas estruturas são instáveis”. E a segunda já meio que responde a primeira, né?

Acho que primeiramente o adolescente tem que sentir, perceber. Por que ele quer isso? Qual a motivação que ascende esse fogo nele? Acho que quando se anda por esse objetivo, se deixa de aproveitar muita coisa valiosa que o skate pode proporcionar e até acaba se frustrando ou algo pior, como acontece com algumas pessoas.

Se o que ele estiver vivendo com o skate encaminhar pra essa direção, por que não imaginar e isso servir de combustível pra mais motivação? Mas servir de combustível, não a engrenagem toda (risos), entende? E com os pés no chão, no presente. Arriscado tudo pode ser, ou não.

Atrativo também, então que aproveite o skate da melhor forma possível e enquanto puder estar em cima dele. Isso é viver de andar de skate também. No final das contas, quem pode decidir sobre isso mesmo é só a própria pessoa.

Como foi e é a relação com sua família em vista ao skate, isso mudou com o tempo?

Daniel Marques: Meus pais sempre foram tranquilos em relação a isso. Sempre me ajudaram e estiveram do meu lado; meus irmãos também. Porém, sempre teve certa preocupação em relação aos estudos, a seguir alguma profissão, em relação ao futuro, pois mesmo eu começando a ter um suporte e ganhar algum dinheiro andando de skate, eles perceberam que é uma parada muito incerta e eu acabei absorvendo bastante essa preocupação e me cobrando também.

Com o tempo isso foi passando e foi ficando bem mais leve na minha consciência, e eles foram ficando mais tranquilos em relação a isso também.

O que forma a sua personalidade? Música, cinema, rua…

Daniel Marques: São as crenças, máscaras, regras, sinapses, fisiologia e genética que adquiri do campo familiar, social e cultural. Junto com a intuição e percepção da realidade, que são formadas a partir disso junto com a minha consciência individualizada, mais a consciência por traz de toda essa multidimensionalidade!

A partir dessa dinâmica toda e mais um pouco (risos) vem como música, arte, rua são absorvidas e somadas na personalidade.

Entrevista Daniel Marques Tribo Skate 254

Daniel Marques, bs smith grind

Certo, entendo de onde vem os sentimentos e como eles se formam, somos diariamente influenciados. Tratando dentro desse parâmetro, o que você tem escutado de música? Tem ido ao cinema, o que tem lido, o que entra pelos seus sentidos e se transferem em sentimentos que vão ser somados a todos os processos de formação?

Daniel Marques: Tenho ouvido muito som instrumental de uma nova geração de beatmakers que faz os sons naquela pegada de hip hop mais lo-fi, ambiente, meio obscuro e leve ao mesmo tempo. E no Youtube ou Soundcloud desses artistas sempre usam imagem ou cena em loop de algum anime japonês, ilustrando a música ou playlist postada; aí algumas imagens dão curiosidades e procuro saber de que filme é e assisto. Em relação à filmes é isso que tenho visto ultimamente.

Também ouço bastante música étnica, ou instrumental de frequências de cura, meditações e tal. Isso me inspira e música faz parte de quase todo o meu dia. Porém, o que tem somado mais no processo de formação tem sido aquela velha e constante busca de lhe dar melhor com os próprios sentidos e sentimentos, de aprender sobre as relações e inter-relações que se formam a partir deles. E nisso melhorar o que me incomoda: as ansiedades, os anseios, angústias, precipitações, egoísmo…

E nessa caminhada encontrei uma escola que trabalha com toda essa dinâmica, física e psíquica do campo humano, e estou fazendo um curso-terapia lá, por isso as leituras dos últimos tempos têm sido na maioria materiais e indicações da escola. Outra coisa que faz bastante parte do processo e se liga com a anterior é a busca de melhorar e prolongar cada vez mais a saúde dos corpos e a relação com o ambiente. Isso envolve alimentação, corpo, sociedade e natureza, todas entrelaçadas e que temos o poder de harmonizar ou as deteriorar.

Acabando de fazer 30 anos o corpo não se comporta mais o mesmo quanto tinha 20, e as escolhas dos hábitos começam a se tornar mais presentes, como você faz para manter corpo e mente em sintonia para manter a constância?

Daniel Marques: Estou aprendendo ainda o que é manter a constância (risos). No rolê do noseblunt drop e do nollie pulando a grade na Vila Mariana (fotos na revista) percebi que talvez estou mais à pampa do que quando tinha 20 anos. Claro que tem algumas diferenças, mas senti o corpo e a mente mais conscientes e lhe dando muito bem com os pulos, com o impacto, sem dores, e um alinhamento bom.

Sobre os hábitos, tenho procurado acordar cada vez mais cedo e não dormir muito tarde. Parte dos alimentos que compro são orgânicos e não como carne há alguns anos. Busco comer alimentos industriais o menos possível, fazendo os rangos em casa, uma porcentagem sendo de alimentação viva. Também faço um treino funcional do macaco cósmico com o Erick Polichetti, que tem sido muito útil em vários sentidos; alongamentos e manutenção em casa.

Tem também a terapia da escola. Sempre procuro ter algum contato com a natureza, faz muita diferença também. Procuro me manter atento às negatividades e presto atenção no que é positivo; pegar mais leve comigo mesmo em relação à culpa e julgamento. Várias coisas, porém com várias faltas de sintonia entre corpo e mente e as inconstâncias e desfoques de sempre (risos).

Sobre alimentação, o que hoje, 2017, você come de mais e menos saudável? Sem esconder haha.

Daniel Marques: De mais saudável é o que faço em casa: o suco de verduras e hortaliças, os legumes e saladas orgânicas, sementes e grãos germinados, leites vegetais, frutas, doces vivos às vezes. De menos saudável são os doces comuns e umas misturas doidas que faço com eles, às vezes.

Ou as seis pizzas doces seguidas em rodízio de pizza (risos). No geral alimentos que na composição vai farinha branca e refinadas, derivados de leite, açúcar branco ou aquelas paradas químicas com nome doido que vêm escrito na descrição dos ingredientes.

Então a alimentação se tornou algo primordial na sua rotina, como tem sido essa fase de descobertas e apreciação?

Daniel Marques: Tem sido muito boa pois trouxe muita novidade pra minha vida. Essa fase começou desde que entrei no processo de parar de comer carne e de como contribuir para menos destruição da natureza.

Isso foi me trazendo muitas informações que foram mudando a rotina e certos valores, e sei que vai continuar mudando. O que motiva muito é sentir os resultados positivos em mim e todas as relações e experiências que me proporciona.

E isso tudo envolve muita apreciação, tanto pelas descobertas na alimentação em si, como por todas suas relações e biodinâmica da natureza.

 

Entrevista Daniel Marques Tribo Skate 254

Daniel Marques, tail drop (Andre Marques)

Você em alguns momentos toca e cria beats pra se divertir. Isso já vem de alguns anos, como vai isso agora?

Daniel Marques: Nos últimos anos mexi pouco nos sons, só que ultimamente estou empolgado e mexendo mais porque estou produzindo um segundo EP que tenho a intenção de terminar ainda esse ano. Esse EP está sendo mais elaborado que o primeiro e envolve certas pesquisas e experiências da minha vida e dos processos de transformação da cultura e espiritualidade que o mundo está passando.

Queria dedicar mais tempo a isso, mas mesmo assim vai rolando de uma forma leve e aos poucos. A parada da música sempre foi prazerosa porque não me cobro muito e vai rolando bem natural. E também estou terminando uma beattape com sons desde que comecei até 2010, quando parei de assinar como D. Marques e começou o Efeito Horizonte, só falta gravar as fitas. Acho que vai ter umas dez ou 15 pra venda!

Você sempre morou em São Bernardo do Campo com a família e há alguns meses foi morar sozinho em São Paulo. Como está sendo essa experiência?

Daniel Marques: Eu ia muito de SBC pra São Paulo e me desgastava e perdia muito tempo nessas idas e vindas. Então, nesse sentido, está sendo muito bom estar mais próximo das coisas que faço.

Está sendo bom também ter o espaço e a liberdade pra fazer o que quiser e como quiser, com meus próprios hábitos e sem incomodar ninguém. Tem sido importante também pra eu aprender coisas práticas da vida que não iria aprender continuando morando com meus pais; e também amadurecer e ganhar confiança em certas coisas que faltam em mim.

Tenho passado bastante tempo sozinho e está sendo forte a experiência de lidar com os prazeres e as angústias que isso proporciona. É uma boa fase de fortalecimento das estruturas.

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Daniel Marques, wallie to fifty (Andre Calvão)

E os rolês de skate do dia a dia?

Daniel Marques: Tem mudado bastante também, menos quantidade e em uma outra qualidade. Tenho andado pouco porém muito intenso – e bastante sozinho ou com todo mundo que está presente (risos).

Antes saía motivado por alguns movimentos ou algo que a pista ou pico proporcionam. Ainda tem um pouco disso, mas no geral tenho saído quase que sem pensar no skate em si, bem neutro.

E quando começo a andar, vou deixando o corpo e a situação na hora pedir o que quer fazer, e assim o rolê vai tomando rumo. Entro em um estado que estou curtindo muito e na maioria das vezes vou embora leve e satisfeito pra fazer as outras coisas do dia.

Depois dessa entrevista, quais são os projetos e planos atuais e futuros que estão envolvendo o andar de skate?

Tem o vídeo da Crail, que está sendo finalizada a edição! Pra esse já parei de filmar. Têm umas ideias de vídeo pra continuar em andamento com o Alê. Vão rolar umas ações legais da adidas também nos próximos meses.

Têm umas viagens pelo Brasil que estou na intenção também. No momento, enquanto respondo, estou em Juiz de Fora uns dias filmando com o mano firmeza fechamento André Viana. Aqui a galera é muito street puro. E é isso: continuar andando de skate, filmando pros projetos independentes dos camaradas, e aproveitando as oportunidades que aparecem.

Por Redação Tribo Skate
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