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Entrevista de Kelvin Hoefler para Street League


O campeão do Super Crown World Championship 2015 Kelvin Hoefler deu uma entrevista para a Street League falando sobre o ano sabático se recuperado de uma grave lesão e o retorno na temporada chegando como um dos favoritos ao título de 2017.

Assista as finais masculina e feminina do Super Crown a partir das 21h (horário de Brasília) pelo http://etnlive.com/

Kelvin Hoefler, flip k-grind. (Cortesia Street League)

Leia a tradução da entrevista na íntegra.

Você ficou fora da temporada do ano passado por causa de um acidente no Tampa Pro. O que aconteceu e como foi o processo pro retorno?
Como sempre, eu estava empolgado para andar no Tampa Pro. Eu fui andar com alguns amigos no bowl de concreto para me divertir. Infelizmente, quando fui dar um 50-50, meu truck de trás escapou. Eu caí e quebrei minha tíbia e fíbula no meio. Fui pro hospital e assisti a final domingo depois da cirurgia. Foi muito difícil pra mim não poder andar de skate porque eu amo andar todos os dias. Então, o processo de retorno foi bem lento e doloroso, mas ao mesmo tempo, bastante motivador. Toda manobra nova que eu voltava a acertar era uma grande recompensa. Sou muito abençoado por poder estar andando de skate novamente. Não consigo imaginar como seria minha vida sem poder andar de skate.

Como está sendo andar nessa temporada após ficar de fora em 2016?
No começo eu estava assustado e tímido. Eu perdi um ano de evolução. Eu tive que voltar a andar de skate e reaprender muitas manobras que eu tinha no pé. Eu comecei a andar de novo no Tampa Pro 2017. Tudo o que eu queria era acertar minhas manobras. Fiquei muito feliz de acertar meu flip frontside bluntslide. Significou muito pra mim. Depois, eu andei em todas as etapas. Foi bom ver todo mundo e viajar pra Munique e Barcelona. Eu amo ir pra Europa. Chicago também foi um bom campeonato.

Você surpreendeu muita gente quando venceu o Super Crown World Championship 2015 no seu primeiro ano na Street League. Você esperava ir tão bem assim, e como você se sentiu ao ganhar?
Eu não esperava ganhar o Super Crown. Eu queria acertar boas manobras no campeonato. Eu não estava acertando minhas manobras no treino. Então pensei, “vamos lá, é o Super Crown, eu preciso acertar algumas boas manobras”. Quero dizer que sou muito abençoado em fazer parte da Street League e sou muito abençoado por ter vencido o Super Crown 2015. Eu me machuquei depois disso. Pelo menos eu tive dinheiro pra cuidar da minha saúde, voltar forte e fazer o que eu faço. Obrigado, Street League, pela oportunidade.

Você sempre se dá bem na Street League, qual sua estratégia pra andar no campeonato?
Apenas tento acertar manobras que tenho em mente. Mas as vezes eu me esqueço das manobras que quero tentar e faço outras. Eu não tenho uma estratégia em mente. Só tento acertar uma boa volta e acertar algumas manobras boas.

Você é um dos skatistas conhecidos mais pelos campeonatos do que partes de vídeo. Como você prioriza andar de skate para campeonatos e filmar, um é mais importante que o outro, pra você?
É interessante como as pessoas pensam sobre isso, talvez porque eles não conheçam minha história. Eu cresci correndo campeonatos no Brasil como todos skatistas brasileiros. Nós corremos muitos campeonatos juntos desde muito pequenos. É assim que temos oportunidade e patrocínios no Brasil. Então eu acho que é assim que os moleques começam no Brasil. Eu acredito que não há diferença entre um skatista de campeonato e um skatista de rua. Todos viemos da rua. Nós viemos da pobreza. Todos nós aprendemos a andar de skate na rua e campeonatos são apenas campeonatos. Skatistas são diferentes. Estamos sempre puxando os limites, quebrando ossos, indo para o hospital, e nunca desistindo! Nós caímos 99 vezes e levantamos 100. Apenas pelo sentimento de acertar ou aprender uma manobra nova.

Na primeira vez que eu vim para os EUA foi pro Tampa Am em 2009. Eu vim com 300 dólares no meu bolso. Fiquei na casa do meu amigo Caio Notaro em Atlanta e dirigimos até Tampa. Caí no seu sofá e tive um sonho de que deveria morar nos EUA. Eu era novo e sem grana. Então como faria isso? Voltei pro Brasil e trabalhei muito pra me profissionalizar pelos meus patrocinadores da época e conseguir um pouco de dinheiro. Em 2011 fui pra Europa, ganhei alguns campeonatos da WCS e juntei uma grana pra ir morar na Califórnia. Eu tive que investir no meu sonho com o dinheiro que ganhei dos campeonatos.

Eu cresci numa cidade chamada Guarujá. Todos surfam ou jogam futebol lá. A maioria das ruas do meu bairro não eram asfaltadas na época. Então a gente andava numa quadra de uma escola todos os dias depois da aula. Mas todos éramos pobres e ninguém tinha câmera de vídeo. Quando eu ganhei a primeira grana em campeonato no Brasil, comprei uma câmera. Mas ninguém sabia como filmar com ela. Meu pai era policial, então ele nunca deixava eu ir andar de skate em outras cidades quando eu era criança. Depois que fiz 18, eu pude sair, viajar o mundo e começar a filmar nas ruas. Agora, geralmente eu filmo entre os campeonatos e junto as imagens. Eu acho que filmar nas ruas é a coisa mais legal que tem. É divertido e você tem o tempo que quiser para acertar a manobra. Fora que as imagens nas ruas ficam boas. Andar em campeonatos as vezes botam muita pressão em você. Eu me divirto mais filmando na rua, com certeza!

Como você está se sentindo indo pro Super Crown esse ano? Está preparado algo especial?
Tenho filmado um pouco nas ruas. Ainda não tive muito tempo pra pensar no Super Crown. Tem algumas surpresas logo mais e estou filmando um vídeo de boas-vindas. Acho que eu quebrei meu dedão em Barcelona mas nunca fui tentar descobrir. Meu dedão está doendo muito ultimamente. Eu vi a pista alguns dias atrás e parece demais. Eu acho que uma pista como essa vai tirar o melhor de todos nós.

Sendo você o campeão mundial da Street League em 2015, o que você acha necessário para ganhar o Super Crown?
Você precisa estar num bom dia e acertar todas as manobras que tiver em mente. Você não pode se comparar aos outros skatistas. Todos são bons e todos podem ganhar, tá ligado? Você só precisa saber pra onde vai e como chegar lá.

Carlos Ribeiro disse que é quase impossível para os brasileiros colarem nos EUA para andar de skate, que faz parte de como vocês são tão bons. Qual a sua perspectiva disso?
Sim, ele está 100% certo. Nós não temos muito! Quando eu era jovem, tudo o que eu queria era comprar um maple da Santa Cruz. Mas era muito caro. Tipo 400 reais, e na época um salário mínimo no Brasil era uns 600 reais. Meu pai nunca compraria um deck tão caro pra mim. Um dos moleques mais ricos da minha cidade ganhou um de natal e a gente queria pegar na mão! Além disso, nós não aprendemos inglês em escolas públicas. Pra ter o visto dos EUA, você precisa ser rico ou conhecer alguém influente no governo. Eu tive meu visto negado em 2008 porque minha família não possuía dinheiro o suficiente. Em 2009, meus patrocinadores me ajudaram e consegui um visto. Eu costumava comprar tênis e peças usadas para andar de skate. Eu só tinha coisas novas no natal. Eu tenho muitos amigos talentosos que tiveram que parar de andar de skate por isso. E eles eram muito bons, tipo deuses do switch! Apenas alguns continuaram. Só se eles tinham a família para dar suporte. Depois que eu me mudei para os EUA, pensei “todos moleques aqui tem as melhores pistas, melhores tênis, melhores peças – tudo que eles precisam é andar de skate”. Nós temos muito o que pensar antes de andar de skate. Quando saímos para andar de skate nas ruas no Brasil, precisamos ficar olhando se as pessoas não vão tentar roubar nossas coisas.

Pra onde você acha que vai o skate e a indústria brasileira no futuro?
Eu acho que vai ser gigante. Tem muitos talentos e marcas. Temos quase oito milhões de skatistas no Brasil. Tem muitas marcas desconhecidas no Brasil porque importação é muito cara e os moleques não tem dinheiro para gastar com produtos caros. Tudo o que eles querem é poder andar de skate. Eu sou um desses moleques que não podia ter produtos caros. Mas eu tenho um grande sentimento pelo Brasil e a indústria. Eu acho que o skate vai crescer muito nos próximos anos.

O que você planejou pro resto do ano depois do Super Crown?
Adoraria filmar alguns vídeos e uma parte nova. Mas estou brigando comigo mesmo porque preciso tirar um monte de parafusos do meu corpo. Está me incomodando. Ando de skate com muitas dores todos os dias.

Kelvin Hoefler, flip backside tailslide. (Cortesia Street League)

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Por Redação Tribo Skate
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