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Entrevista: Rincon Sapiência, Desejo de Liberdade


O rapper paulistano Rincon Sapiência faz poesia musicada no álbum ‘Galanga Livre’. Ao propor uma narrativa inspirada na história de Chico Rei, ícone da luta abolicionista, aborda o tema da liberdade em todos os aspectos.

Da resistência política às amarras que prendem o coração. De papo com a Tribo Skate, ele discorreu acerca disso e falou ainda sobre futebol e vegetarianismo.

texto Eduardo Ribeiro // foto Renato Stockler

Fale de como pintou essa ideia de fazer um álbum inspirado na história do Chico Rei.
Rincon Sapiência: O lance do Chico Rei surgiu muito por conta de que nessa contação de história africana que eu me proponho a fazer nas músicas. Às vezes a impressão que dá, quando se pensa na história africana, é que só existiu a escravidão. Mas existiram outras histórias legais, outros impérios que tinham um conhecimento avançado, consumiam do ouro, e por aí vai. Eram sociedades bem estabelecidas e estruturadas.

Então, a partir disso, passei a fazer uma pesquisa a respeito da monarquia no continente africano. Foi aí que eu conheci o Manicongo, os reis no império do Congo, e Chico Rei, um rei deste império que veio para o Brasil na condição de escravo e comprou a sua liberdade e a de outros escravos. Um grande abolicionista na história preta brasileira é sem dúvida o Chico Rei, que se chamava Galanga.

Na faixa “Crime Bárbaro”, que abre Galanga Livre, o rei-escravo mata seu senhor e foge para alcançar a liberdade. Na história original que se conta, ele juntou ouro para trocar por sua alforria. Qual o intuito dessa liberdade narrativa?
Esse conto do escravo Galanga serve como analogia porque, nos dias de hoje, quando estou reivindicando minha posição como preto na sociedade eu não tenho assassinado ninguém pra fazer isso.

O que eu quero matar são os valores racistas, a coisa de dizer que o cabelo crespo é “cabelo ruim” e uma série de coisas que sempre caíram na normatividade. Termos populares por aí que falam de preto…

A proposta é essa, porque ele gerou uma reviravolta no engenho. Estamos, de certa forma, assassinando conceitos que são hostis pra nós. Essa é a simbologia do Galanga ter assassinado o senhor de engenho.

Ser pacífico não significa necessariamente ser passivo, certo?
Dar a outra face pode omitir a sua posição. E a nossa posição precisa ser colocada. Isso às vezes equivale a um tapa, um golpe. Precisamos entender isso.

Entrevista: Rincon Sapiência, Desejo de Liberdade

A libertação que você propõe é política e também pessoal, como se nota em algumas faixas.
Amar passa pela libertação também. Quando falo de Galanga livre, é a liberdade de fato. Não só do personagem, mas do ser humano.

Por que nos permitimos a aceitar tantas amarras, em sua opinião?
Essa amarra vem muitas vezes do sentimento de culpa. Você cria o sentimento de culpa por conquistar alguma coisa. Existe muito isso.

Como foram os seus primeiros contatos com a cultura de rua?
O futebol foi o que me levou pra rua. Indo pra rua eu conheci as rodas de samba, o ambiente da rua, quem era malandragem, quem fazia alguma atividade ilícita, quem não fazia, a polícia e como ela reprimia, como se comportava. Tudo eu aprendi a partir do futebol.

A foto da capa saiu muito legal. Ela reconstitui alguma cena histórica?
Ali é um lugar na Bela Vista, região central de São Paulo. No meu ponto de vista São Paulo toda deveria ter essa arquitetura igual Havana; aquela estética antiga, da janela, das portas. Os poucos lugares que mantêm essa arquitetura me atraem pra fazer foto.

Quando veio a proposta do disco, com referência da moda africana, dos dândis, eles usavam aqueles chapéus, charutos, paletós coloridos, isso me influenciou muito pra fazer a capa do álbum.

A sua opção pelo vegetarianismo tem a ver com motivos políticos, espirituais ou de saúde?
Eu me tornei vegetariano há 14 anos, quando tinha 17. Foi pelo lado espiritual, por influência das culturas Hare Krishna e Rastafári. Ao longo dos anos, descobri o lado social, como os grandes latifundiários do agronegócio são hostis com territórios indígenas, quilombos, e como a qualidade dos alimentos carnívoros é ruim.

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youtube.com/manicongo01

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Por Redação Tribo Skate
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