Música

Haikaiss: um novo rap para os novos tempos


Autoproclamados expoentes da New Golden Era do rap tupi, um dos grupos mais produtivos da atualidade faz balanço da carreira e manda um papo sobre skate e o próximo álbum. Confira na íntegra a entrevista que está em nossa edição 243/abril!

Por Eduardo Ribeiro

E lá se vão dez anos desde que o grupo de rap Haikaiss chegou na área com a ousada proposta de apresentar aquilo que os integrantes chamam de “New Golden Era”. O primeiro trampo, Incógnito Orchestra, apareceu no final de 2010. Entre aquelas músicas e o repertório do álbum mais recente, o duplo Fotografia de Um Instante, lançando no ano passado, o quarteto formado por três MCs – SPVic, Spinardi, Pedro Qualy – e um DJ – Sleep – vem apostando numa incessante produção musical. Com isso, firmou-se como um dos maiores destaques da nova escola do rap nacional. Porém, as mais de 70 músicas compostas nesse período, distribuídas em dois álbuns, dois EPs e uma pá de singles, não teriam alcançado a mesma repercussão sem a inventiva qualidade das batidas e a feroz poética dos versos que conduzem a mensagem. Estrofes verdadeiramente capazes de representar o espírito da nova geração do hip hop.

Durante a nossa entrevista, regada a boas geladas numa cervejaria de Moema, em São Paulo, os integrantes não mostraram arrependimento em soltar tanto material num período relativamente curto para a digestão do público. Apenas sentem muito que nem todas as 35 faixas da obra recente tenham sido devidamente apreciadas pelos ouvintes. Isso, contudo, não faz com que eles metam o pé no breque. Influenciado por nomes como A Tribe, Slum Village, Jaylib, Mos Def, Common, Beastie Boys, The Pharcyde e Talib Kweli, o Haikaiss é uma banca criativa em constante ebulição. Tanto, que neste exato momento os caras seguem cumprindo uma rotina diária e disciplinada de encontros em seu próprio estúdio, na Zona Norte da capital paulista. Dessas sessões, em breve sairá mais um play. E eles garantem: vai ser estouro!

Como vocês acham que o Haikaiss evoluiu ou se transformou esteticamente desde a sua formação até a fase atual? Vocês ainda defendem as mesmas ideias e tipo de som?
Spinardi: Quando começamos o Haikaiss, em 2006, o grupo tinha outro formato. Éramos eu, o Vic e o Ursso. Por sinal, ele está até lançando um disco solo. Mudou praticamente tudo. Nós não tínhamos um DJ, fazíamos pouquíssimos shows, e gravávamos num home studio, que era do Vic. Num quarto, com o pé na cama. Aí em 2008 saiu o Ursso, logo na sequência entrou o Qualy e em 2011 entrou o Sleep. Então, esteticamente virou outra coisa.
Pedro Qualy: E até a pegada mudou, porque a gente fala daquilo que vive. E antes nós não vivíamos isso, esses esquemas de shows, de viagens. Depois de um tempo começamos a viajar e a trabalhar com a nossa música e isso passou a fazer parte das letras. Cada dia é uma novidade, cada dia é uma rima. A vida vai virando música.

Spinardi: No início a filosofia oriental haikai influenciou muito em como a gente pensava as músicas, justamente para não ter um contexto vazio. No primeiro disco, o Incógnito Orchestra, isso foi muito mais presente. Éramos muito mais preocupados com essa mensagem, de fazer uma ligação do nome da banda com a filosofia. Hoje em dia, depois de já termos explorado isso bastante, a nossa concepção já é outra. Temos um interesse mais musical e não ficamos tão presos a defender uma determinada filosofia, no sentido de militância. Nosso compromisso hoje é fazer música boa que represente a nossa fase atual.
Pedro Qualy: A preocupação hoje é estabelecer uma estrutura poética nas letras.

Então a filosofia haikai não faz mais parte da identidade do grupo? Virou só um nome?
SPVic: De forma alguma. Nós ainda acreditamos na ideia por trás do nome haikai, que significa basicamente que com o mínimo você pode ter o suficiente. Isso a gente tem sempre, é uma coisa que levamos pra todos os momentos da vida. Tudo que a gente faz sempre terá essa filosofia. Só que não mais com aquela obrigação de ter que escrever ou compor sobre essa temática. Se fosse pra assumir a filosofia haikai ao pé da letra, teríamos que fazer até um estudo de sílabas, porque o haikai tem toda uma fórmula.

Pedro Qualy: A gente quis sair disso pra poder ter a liberdade da poesia. Pra não ficar limitado.

O Haikaiss é promovido com o termo “New Golden Era”. Pegando esse gancho, onde começa a nova era nova era do rap nacional, na opinião de vocês?
Pedro Qualy: Acho mais fácil falar de como o esse tipo de rap chegou pra gente. Foi inclusive por meio da cultura skate que começamos a escutar esse tipo de som. A partir do Elo da Corrente e do Contra Fluxo. Esse era o som que rolava no meio do skate. Só que naquela época era difícil você descobrir que artista que era. Você escutava de relance e nem sabia quem cantava. Mas aí veio o primeiro nome que mudou tudo, o Emicida.

Spinardi: É, o Emicida veio mesmo como uma marca de, tipo, “a internet está aqui”.

DJ Sleep: Ele foi o cara que mostrou que dava pra fazer o próprio corre, o próprio trampo independente, os próprios beats…

Pedro Qualy: E a partir disso o rap começou a evoluir musicalmente. E isso tocou muito mais a gente.

Spinardi: Logo depois do Emicida apareceu também a Cone Crew com uma onda muito forte do rap. Acredito que esses dois artistas foram os que realmente marcaram o começo da nova fase do rap.

Pedro Qualy: A partir daí a gente percebeu que dava pra fazer um rap com mais melodia, com várias coisas que foram novidade pro público.

Spinardi: Porque nós temos diversas influências né, não só rap. Jazz, grooves. Principalmente o Vic e o Sleep escutam direto.

Pedro Qualy: Nós também somos produtores de batidas, e o nosso esquema é em cima de músicas antigas.

DJ Sleep: A maioria dos sons vem disso aí, de samples. Músicas bem antigas editadas. Até hoje, graças a Deus, ninguém implicou com a gente por causa disso. Ninguém nunca descobriu os picotes, e que continue assim! [risos]

Pedro Qualy: É porque tem que saber fazer, não pode deixar muito na cara.

DJ Sleep: Tem uns por aí que são descarados!

Vocês começaram no underground e, com milhares de seguidores nas redes sociais, já estão beirando ao pop. Como é possível manter a integridade junto com a fama?
Spinardi: A gente se preocupa em nunca perder a essência do underground. Quando estávamos começando, escutávamos músicas underground e também pop. E o que a gente mais gostava vinha do underground. Hoje, com o Haikaiss tendo uma visibilidade que é quase pop, a proposta é continuar expandindo, mas sem nunca perder a essência.

SPVic: O que acontece é que quando você faz músicas que ficam pop, você acaba entendendo a fórmula do pop. E eu acho que a parada é essa: em algum momento alguns artistas ficam presos nisso, em começar a fazer música sempre com essa fórmula. O cara deixa de experimentar.

Spinardi: Isso a gente nunca vai deixar acontecer com o Haikaiss, porque a nossa intenção é sempre explorar novos caminhos.

Haikaiss: um novo rap para os novos tempos

Tem alguém da banda que possa ser considerado o mentor criativo? Como surge o fio condutor das músicas?
Spinardi: Cada música tem um processo. Por exemplo, tem uma que o Vic chega e fala que pensou num tema pra todo mundo trabalhar junto…

Pedro Qualy: A gente tá sempre junto, então um mostra uma batida pro outro, que faz uma rima, dá a deixa pro outro continuar e vai embora…

Spinardi: Não tem um compositor que faz as músicas pra banda interpretar.

Pedro Qualy: Nem sempre dá certo esse esquema de ter uma rotina pra compor, mas agora está rolando, pelo menos. Estamos vindo com um disco novo agora, né, então estamos tentando fazer uma criação mais coletiva. Agora é três horas da tarde, todo dia, todo mundo cola no estúdio.

Spinardi: Na verdade a gente se tromba naturalmente. Aqui todo mundo é muito amigo.

Então o grupo acabou se formando em decorrência de vocês já serem todos do mesmo rolê?
DJ Sleep: Na verdade só eu não vim do mesmo rolê, sou de São José dos Campos. Aí eu vim de lá, e já estava morando no bairro de Santana, e conheci os caras, virou irmandade.

Spinardi: É, tirando esse velho safado [aponta para o DJ Sleep] todo mundo aqui se gosta pra caralho [risos].

Pedro Qualy: Não tem outro DJ, né, tem que ir com esse mesmo [risos].

SPVic: Tem época que cada um da banda está numa fase. Um está escutando rap, o outro trap e o outro pagode [risos]… Aí as músicas absorvem tudo isso.

Ouvi dizer que o Haikaiss já está no rascunho de um novo álbum. Como andam os trabalhos? Podemos contar com músicas inéditas pra 2016?
SPVic: É pra esse ano, né…

Spinardi: Não, na verdade é melhor não prometer nada… Seria equivocado demais da nossa parte dizer que vai sair esse ano. A gente quer trabalhar nele esse ano. Mas isso não significa que vamos conseguir finalizar. Nós já cometemos o erro, por duas vezes, de falar que o disco sairia, e no fim das contas acabou atrasando porque cada um de nós tem um ritmo. Mas o que podemos adiantar é que já estamos trabalhando nele. Esse é um disco que pretendemos lançar com aproximadamente umas 13 músicas, explorando novos caminhos, no caso o trap.

Pedro Qualy: Dessa vez a gente quer fazer um lançamento planejado. Porque nós precisamos até de marcas para pagar o CD, patrocinar nossa turnê de lançamento… E a gente percebeu que muita marca você tem que começar a sondar com cinco meses de antecedência. Sem ninguém patrocinando o rap nós não conseguimos pensar em coisas bonitas, tá ligado?

DJ Sleep: Quando a gente fala que vai lançar e o negócio não acontece, além de queimar o filme vira uma pressão, e isso atrapalha a espontaneidade do processo criativo.

Agora que já passou um tempo desde o seu lançamento, como vocês avaliam os erros e acertos de Fotografia de Um Instante?
Pedro Qualy: O Fotografia de Um Instante foi o disco onde nós encontramos a nossa identidade. Antes dele, nós queríamos ser tudo ao mesmo tempo. E ali nós conseguimos identificar o que cada um sabe fazer de melhor e isso trouxe o auge da escrita pro Haikaiss.

Spinardi: Agora, mensurando erros e acertos, o Qualy mencionou o ponto em que acertamos, pois até aqui esse é o disco mais importante do Haikaiss. Já falando de erros, acho que atrapalhou o fato de termos lançado muitas músicas. O álbum tem muitas músicas boas que não foram aproveitadas da maneira que deveriam.

Pedro Qualy: Aprendemos uma lição até com o próprio YouTube. Nós lançamos um monte de músicas juntas, no mesmo canal, então uma acaba matando a outra. Aí chega um outro canal e bota uma música solta ali, e aquele som começa a bombar. Então canais que não tem nada a ver com a gente tem cinco milhões de visualizações numa música nossa, enquanto que o próprio canal do Haikaiss tem 600 mil.

Spinardi: É essa a parada, o mau aproveitamento de músicas muito boas, tipo “De Onde Estou”, que é top, a “Insônia”, “Engano do Beijo”… São faixas que se fossem melhor trabalhadas, poderiam ter repercutido muito mais. Então esse tipo de coisa nós não faríamos novamente.
Mas acho que o público ainda vai acabar redescobrindo esse álbum daqui um tempo. Lá na frente, faixas que repercutiram pouco podem atingir até uma condição de cult…

Spinardi: Um exemplo disso mesmo é o nosso primeiro disco. O Incógnito Orchestra só foi ser descoberto pelo grande público depois que o Haikaiss já estava com um certo nome. Hoje em dia tem até gente que fala que só começou a gostar do Haikaiss por causa desse álbum.

Vocês estão satisfeitos com a qualidade e a infraestrutura do rap nacional hoje em dia?
Pedro Qualy: O rap nacional está ganhando uma proporção tão grande aqui no Brasil que já está extrapolando as fronteiras. Tem gente lá de fora curtindo muito o rap brasileiro, tipo no Chile, outros países em volta, e isso é uma das coisas mais bonitas que podem acontecer. De você começar a expandir aquela cultura que nem foi criada aqui, mas que a gente faz com tanto amor que as pessoas entendem, tá ligado?

DJ Sleep: Hoje em dia tem mais gente lá fora consumindo o rap brasileiro do que aqui.

Spinardi: Eu acho que precisa melhorar a indústria mesmo. Acredito que falta um empurrãozinho a mais. A confiança da indústria no hip hop pra transformar o rap brasileiro na potência que ele merece ser. Música de alto nível e que possa ser expandida. Agora, tem também um lance que atrapalha, que são as panelas. O hip hop não é unido como as pessoas podem imaginar. A própria Da Massa Clan foi criada para que nós pudéssemos nos infiltrar no esquema. Um exemplo é a Virada Cultural. Sempre falaram pra gente que era possível participar, que só tinha que se inscrever e tal. Só que todo ano são sempre os mesmos que se apresentam ali. Ou seja, é uma coisa muito fechada mesmo. Então, ou você tem que invadir o terreno das suas próprias maneiras. Não é tão unido como eu vejo em outras cenas musicais.

Haikaiss: um novo rap para os novos tempos

O que é a Da Massa Clan exatamente? Um coletivo, uma crew, uma cooperativa artística?
Spinardi: A Da Massa Clan é tipo uma fraternidade. Nós criamos essa espécie de agremiação de amigos em 2011 com a intenção da gente se unir e fazer a nossa própria “panela”, digamos assim. Pra gente poder invadir o cenário do nosso jeito. E tudo porque nós percebemos uma rejeição das panelas já formadas na cena. E isso realmente vem funcionando. São pessoas próximas que se ajudam entre si para que todos cresçam cada vez mais. A grande maioria é tudo MC da Grande São Paulo: Haikaiss, Costa Gold, Flow MC, Família Madá, Bitrinho, Guerrilheiros, ZRM. Mas a crew não tem a ver com bairro ou região, é por afinidade. Tem o Cortesia da Casa, que é do Rio, o Tubaína, de São José dos Campos, o Dalsin, que hoje mora em Santos.

Pedro Qualy: Nós temos um estúdio, né. E o nosso estúdio serve de base para a Da Massa Clan. As coisas então na verdade foram acontecendo naturalmente, com as pessoas que colavam lá.

Que outras paradas ajudam a formar o espírito do grupo, fora da música?
DJ Sleep: A cultura do skate, definitivamente. E eu vou falar uma parada que você vai pensar que é pra fazer média, mas não é, não. É real: a primeira revista de skate que eu li na vida foi a Tribo. Foi em 1997, no mesmo ano em que eu comecei a andar de skate. Como eu ando, e o Qualy também, nós sempre fomos influenciados pela cultura do skate. Desde o início da minha carreira como DJ, o universo do skate sempre teve influência. Acho que pros outros caras também. A gente conheceu o rap por meio do skate. Foi uma das primeiras cenas fortes que eu vi englobando música, esporte, moda, estilo de vida, comunicação, atitude. E tudo isso começou na revista Tribo Skate.

DJ Sleep: Todo mundo da banda curte a parada do skate. O Luan Oliveira, por exemplo, é muito amigo nosso. O Spi esteve lá no Street League com ele ano passado até, acompanhando.

Spinardi: Inclusive eu gostaria de mandar um salve pros amigos skatistas. Cerezini, Gerdau, o Luan, que é irmão, JP Dantas. Queria dizer que eles são muito importantes pra nós. Eles nos inspiram demais.

DJ Sleep: E tem o MC mais famoso entre os skatistas, que é o Kamau. Ele foi o cara que ensinou que o rap e o skate são a mesma cultura. O Parteum também. Vale também mandar um salve pra Pamela Rosa, skatista da minha cidade, que ganhou aí o X-Games em Oslo. Parabéns! Só não curti a pegada da matéria da ESPN que fizeram com ela, ficou muito raso, mas tudo bem. Os caras retratam tudo com aquela mesma linguagem com que cobrem futebol.

No que mais vocês piram? Cinema, literatura?
Spinardi: Eu procuro buscar inspiração em exemplos humanitários, o lance de que podemos ser algo mais. Um livro que admiro muito é O Menino do Pijama Listrado, que mostra a visão de uma criança sobre o Nazismo. E o filme é A Lista de Schindler, que traz um exemplo de vida, né. O cara era milionário, alemão, e ele vendeu tudo pra salvar o máximo de judeus possível. Ou seja, até hoje existem judeus salvos por ele por aí, e eu acredito que isso é um exemplo de ser humano. Um cara que renunciou a toda aquela crueldade para fazer o bem. Ele faliu, ficou pobre, mas conseguiu concluir a missão dele.

SPVic: Eu acho que O Diário de Um Mago, do Paulo Coelho, é um livro importante que todo mundo leia, pra entender um pouco da vida. E de filmes, Waking Life e Zeitgeist. Essas paradas me influenciam pra caralho, principalmente na escrita.

A Esseponto Records é o selo da banda? Todo mundo entra na sociedade?
SPVic: A Esseponto Records somos eu, o Spi e o Qualy.

DJ Sleep: Bom, agora chegou a hora de eu vazar, então. Falou aí! [risos]

SPVic: É uma sociedade, a gente que banca tudo. Gravação, mixagem, masterização, distribuição, prensagem do CD também.

Pedro Qualy: Somos 100% independentes, assumimos até a distribuição. Nada é terceirizado. A distribuição, talvez, um dia possamos fechar com alguém, se rolar uma proposta interessante. Mas uma coisa importante é nunca deixar ninguém meter o dedo no nosso trabalho.

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Por Redação Tribo Skate
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