What's Up

Diretor Leo Coutinho fala sobre documentário “Brazil é com S”


Exatamente um ano atrás, em abril de 2016, a ÖUS realizou uma ousada turnê que durou dez dias, passando por 12 cidades, para que os skatistas pudessem andar de skate em lugares inusitados. O videomaker Leo Coutinho viajou junto, ajudou a fazer os registros e produziu o documentário do “Brazil é com S“.

Depois de realizar algumas exibições pelo país, o documentário agora está disponível online.

A Tribo Skate conversou com Coutinho, que acaba de lançar oficialmente sua produtora, a Malac.

Por Sidney Arakaki

Esse foi o primeiro trabalho da Malac?
Foi. O lance da produtora, eu iniciei um tempo atrás com o “Identidade“, que surgiu como um vídeo. E nessa transição de Mini DV pro Digital, canal de Youtube, aí eu transformei o que era a ideia de um vídeo inicial e acabou virando um primeiro projeto de – vamos dizer assim; como se fosse uma produtora. Aí eu não consegui colocar ele pra frente e ficou lá guardado essa história. E a Malac veio pra ser a evolução disso. Acho que juntou mais uma maturidade, de profissional, de objetivo, do que querer fazer da vida. E aí nasceu a Malac com o lançamento desse filme da ÖUS. O “Brazil com S” é o primeiro trabalho que a gente assinou oficialmente.

Como te convidaram para esse projeto de viagem?
O convite foi um pouco natural. Porque eu já tinha feito alguns projetos com a ÖUS. Fiz um mini-doc com o Patrick (Vidal), no lançamento do pro-model dele. Então a gente já tinha trocado algumas ideias e falaram dessa tour que eles iriam fazer esse projeto, aí rolou.

Mas você participou também do cronograma, sugestões de cidades?
Sim. Eu recebi o briefing bem no início. A princípio era um plano, depois mudou. A gente trabalhou junto, eu com os caras da ÖUS, desde o início.

Os lugares que vocês passaram, teve cachoeira, rios com peixes…
A cachoeira foi em Uberlândia, Minas Gerais. O rio foi em Bonito, Mato Grosso do Sul, e já estava planejado, estava no roteiro. O lance da cachoeira foi muito espontâneo, não estava nada planejado. Estava todo mundo morto, vindo de Brasília. Chegamos de noite num camping, no meio do mato. E quando acordamos, estávamos do lado da cachoeira. E foi muito da hora que não estava nada planejado. Estava todo mundo morto e recarregamos a energia na água gelada da cachoeira.

Todas as noites foram dormidas no motorhome?
Todas as noites foram dormidas no motorhome. No vídeo não aparece tanto dentro do ônibus, mas tinha uma parte que tinha os quartos, metade das camas. E na parte da sala, onde tinha fogão, tinha umas poltronas reclináveis que viravam mais quatro camas. Então tinha camas pra todo mundo.

ous_brasilecoms_viniciusbranca_0160981

Coutinho gravando os bastidores do “Brazil é com S”. (Cortesia ÖUS/Vinícius Branca)

Você tinha que filmar as sessões, todo mundo, sem descanso, depois dentro do motorhome trabalhava ou parava pra descansar?
No motorhome a gente aproveitava para descarregar os arquivos no “liquidificador ambulante”. Notebook balançando, cartão de memória… tinha que carregar as baterias. Foi bem puxada essa logística dessas funções, porque o motorhome tinha que estar ligado no gerador. Então tinha que achar uns lugares para ligar e gerar energia pros nossos equipamentos. Foi um pouco desafiador essa parte do processo, que são os bastidores que não aparece no filme.

A gente não descansa, fica 24 horas com a camerazinha com uma cordinha pra filmar todos os momentos. Eu fiquei muito focado em pegar esse lifestyle mesmo, os bastidores. Claro que o skate tem que estar ali, mas eu quis mostrar o além disso, o que rola por trás. Então eu estava com a câmera o tempo todo ali comigo, e o pouco tempo que deu eu dormi.

É animal andar de skate o dia inteiro. A gente andou um dia em uma cidade, entrava no busão, dormia e acordava em outro lugar. Por ser uma casa ambulante, se deslocar. Quando conseguia dormir de noite e o deslocamento não era tão grande, acordava sem escovar os dentes e andar de skate… a gente não faz isso nem nas cidades onde moramos. Todo mundo se encontra pra andar de skate. Lá todo mundo estava acordando, tomando café ou andando de skate, isso foi muito da hora. Foi uma coisa bem marcante

A edição você montou de forma cronológica?
A ordem do filme não é a ordem da viagem, de fato. Algumas coisas se mantiveram mas pra ser mais fluido e fazer sentido tiveram pequenas mudanças.

Aquele pico de lama foi em Parati?
Essa foi a maior surpresa. Encerrou o filme com chave de ouro. A ideia era ir pra praia, ninguém sabia do lamaçal e aquela energia. Todo mundo pensava que iria ficar de boa na praia, último dia e tal. A gente estava caminhando na praia, fomos vendo que vinha uma galera suja. Aí ficamos uns dez minutos olhando quem ia primeiro. Aí um começou a dar grau no outro e todo mundo pulou. Deu uma energia boa. Pra mim, pelo menos, transmitiu bem a energia e o encerramento pro filme.

O Gian comentou um negócio legal, que ele sempre viaja mas nunca tinha parado pra conhecer as cidades, só pensava em skate. Você acha que no geral acontece isso mesmo?
O Gian mandou muito bem. É muito isso. Se a gente for ver uma média, o tanto de skatistas que vão andar no Macba e quantos que entram lá dentro. É um pouco disso. É um cronograma apertado, todo mundo tem que produzir bastante e a gente fica bastante na rua. Mas é muito da hora ter uma conexão, conhecer uma outra parada. Abrir a mente para outras coisas. Isso reflete até no rolê de skate. Tipo, vamos tirar a manhã pra ir na cachoeira e andar de tarde. Cria-se um equilíbrio nessa história. Pra quem conhece o lugar é totalmente válido.

É legal porque você contextualizou tudo e é legal tanto pra quem participou quanto quem assiste também.
Acho bom porque comunicamos com mais pessoas, não só skatistas que consomem manobras de skate. Acho que abre a mente pra muitos caras que só consomem manobras, manobras, manobras. Tem manobras e tem uma vivência por trás. Acho que isso abre a mente dessa galera que é um pouco mais skate bitoladão, vamos dizer assim. E ao mesmo tempo, foi um monte de pais de amigos nas premières. O mais legal foi ver o feedback dessa galera que não anda de skate. A galera pira muito, eles nem imaginavam que o filme ia ser isso. Eles imaginavam que iriam entrar numa sala de cinema e ver um monte de manobras que não entendem porra nenhuma. Iam mais pra dar uma força pra família, e ficavam amarradões, falando que ficou bonito. Abriu muito pra outro público, que eu acho animal. É cada vez mais isso que a gente busca, onde a gente quer levar o skate.
Ainda mais com essa imagens lindas, cristalinas, bem captadas. Isso faz diferença num filme.
A fotografia é muito importante. Eu acho a fotografia de extrema importância, pra ter esse impacto visual e comunicar com a galera. E deixar registrado da melhor maneira.

Porque hoje em dia, com o acesso a tecnologia e equipamento é fácil. Mas o pessoal não sabe usar e valorizar os recursos, fotografia. Tentam pegar só manobras e nem isso acabam fazendo bem.
Ainda mais com a geração de drones, steadycam, tudo é alta tecnologia. Esse filme mostra um pouco disso. A capacidade de conseguir fazer uma edição enxuta, com uma câmera na mão mesmo. Assumir isso como uma linguagem e ao mesmo tempo ter essa verdade e a beleza visual, essa estética. Eu acho que a gente consegue trazer essa qualidade, tanto com um puta equipamento mas também com uma simples câmera. Filmar na hora certa no lugar certo, o ângulo certo.

Não perdeu tempo com clichês.
Exatamente. A gente que trabalha, pensa muito no lado técnico, de querer entregar o melhor. Numa tour como essa, o que minha experiência me trouxe, é que quanto mais a gente simplifica, melhor. Porque a tour não para. Quanto mais ágil a estrutura de produção, muito melhor. Eu queria ter levado o Ronin (estabilizador de imagens), mas a melhor coisa foi ter ido sem o Ronin. Porque ia demorar muito pra montar, ia ficar muito amarrado a uma coisa estética e as vezes ia perder muito mais conteúdo verdadeiro.

Coutinho gravando os bastidores do "Brazil é com S". (Cortesia ÖUS/Vinícius Branca)

Coutinho gravando os bastidores do “Brazil é com S”. (Cortesia ÖUS/Vinícius Branca)

Porque ficou uma linguagem bem jornalística.
Eu acho que tem um pouco de uma linguagem de um documentário tradicional, pode se dizer. Tem um pouco de uma linguagem clássica de documentário, com a narrativa jornalística. Mas se equilibra com o ponto das imagens, fotografia.

E o Roni comentou que foi a melhor viagem da vida dele.
Muita gente assiste o filme e pode parecer que aquilo é muito clichê e o cara estar falando uma coisa muito forçada. Ainda mais pra encerrar o filme. Mas eu coloquei porque a parada foi sincera. O cara falou de verdade mesmo, acredito que foi real.

Porque você acha que ele falou isso?
É muito do contraponto desse formato de tour de skate de sair pra andar, filmar picos. Hotel, pico, manobra, manobra, manobra. E é muito dessa vivência do skate, desse lifestyle. Ao mesmo tempo que é um compromisso, acaba ficando leve porque tem essas “folgas”, esses outros rolês fora do skate. Que eu acho que enriquece tudo. Mas de uma maneira geral eu acho que teve a energia da galera, todo mundo bem sintonizado. Um crew muito unido. A maioria é amigo há muito tempo. E uma galera muito fácil de lidar. Não ter brigas, é uma coisa positiva mesmo. Então acho que envolve um pouco de tudo isso.

Geralmente quem assiste vídeo de skate é exigente quanto ao nível de manobras. Ele espera ver um vídeo, filme, documentário de skate e quer ver manobras. Sempre vão ter os caras reclamando que não teve manobras. Mas essa foi uma viagem que o propósito não foi só manobras.
Exatamente. Não é um vídeo completo da ÖUS. É o documentário da viagem, então são duas coisas diferentes. Embora essa percepção de nível de manobras, eu vejo que a galera cobra muito. E acaba perdendo um pouco da essência, que é ser feliz. Não é porque o cara dá uma manobra sinistra que você vai lá dar outra mais sinistra. Foda-se que o “game” cobra. Eu quero fazer uma imagem bonita de uma manobra simples, essa é a arte. E essa simplicidade, se for verdadeira, já é o que há.

Teve o comprometimento de todos registrarem manobra. Mas, sem estar registrando, rolaram sessões descontraídas na viagem?
Prioridade foi filmar. Mas tiveram vários lugares que se divertiu muito. Até tiveram imagens minha, do João (JP Romero, videomaker) e do Fernando (Zanonni, fotógrafo) andando, lá em Guapiaçu. Todo mundo conseguiu andar de skate. A gente passou o dia lá na Plaza. Então sobrou tempo, todo mundo fez a sua. Em Brasília todo mundo conseguiu andar de skate no (setor) Bancário. Tiveram esses momentos lights, que foram legais.

 

Veja também

Sandro Dias fala sobre participação na Caravana do Esporte

Amazônida Maikon Quaresma fala sobre seu vídeo

De Cubatão para Goiânia, Guega Cervone fala sobre profissionalização e vídeo Província

Por Redação Tribo Skate
Os textos, informações e opiniões publicadas nesse espaço são de total responsabilidade do autor. Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Ativo.com