Danilo Cerezini fala sobre novo vídeo da BLVD

17 de maio de 2016 ● POR Redação Tribo Skate

Backside nosebluntslide. (Ricardo Napoli)

De passagem por São Paulo durante a première mundial do vídeo “Quinto“, da Boulevard Skateboards, o skatista profissional curitibano Danilo Cerezini falou com exclusividade para o site da Tribo Skate.
O Quinto estreia online na próxima sexta-feira, dia 20, no The Berrics, e Cerezini é um dos cinco skatistas com parte.

Por Sidney Arakaki

Foram quantos anos de produção do Quinto?
Pra mim, foram três anos gravando. Porque depois que eu lancei minha parte pela CemporcentoSKATE,  não lancei mais nada (grande) depois. Lancei bastante coisa, tem bastante coisa na internet. Tem bastante imagens, tem até pra lançar outra parte nesse ano. Foi isso, três anos viajando. EUA, Europa, China… Vários países da Europa.

Você não tem participado de competições. 

Não.

Danilo Cerezini. (Divulgação)

Danilo Cerezini. (Divulgação)

Isso aí lhe ajudou a focar?
Com certeza. Porque aí não tive a preocupação de ficar treinando, que vai ter campeonato logo. Ajuda não, é diferente. Com certeza, a pessoa que faz os dois, ou faz um ou outro, foca mais no que tem que fazer. Meu foco é mais em vídeo mesmo. Filmar e lançar parte. Sei lá, já passou minha fase de campeonato. Acho que até corri demais quando era pequeno. Meio que empapuçou. E também, falta de oportunidades, de poder entrar nesses campeonatos grandes. Senão, com certeza eu ia estar lá dentro. Não é fácil, e se tem, são 20 caras pra uma vaga. Até tive essas oportunidades, mas não dá. Por falta de incentivo ao esporte no Brasil não tem como competir com os caras que têm pista em casa.

Mas você tem a pilha de participar de X Games, Street League?
Mano, vou te falar que eu tenho! Porque eu sempre andei, tá ligado? O problema não é ter alguma frustração com campeonato. É mais a oportunidade de ter mais campeonatos e se classificar pra entrar nuns desses. Óbvio que seria bom pela parte financeira. Campeonato é legal da ‘vibe’ de ver amigos e tal. Reencontrar amigos e conhecer lugares ou ir a lugares que não vou há tempos. Mas eu não me importo muito com isso hoje em dia. Acho que eu já fiz demais quando era mais novo. Hoje em dia eu prefiro mais viajar e fazer os meus rolês. Óbvio que eu tenho que encaixar os meus rolês com compromissos. Acho que é difícil hoje em dia ter alguém que passa três meses em Barcelona, meio que mora lá e filma. Viajar pela Europa, que é fácil o acesso. Então hoje em dia eu consigo fazer isso e me sinto mais realizado e feliz. Não tenho muito as obrigações, como vejo hoje em dia o Luan (Oliveira), o Tiago (Lemos). Eu já passei por isso. E foi foda, não parava. Mesma coisa, mesma pegada. Então hoje em dia eu me sinto mais realizado de poder fazer o meu de maneira diferente.

Pelo que eu me lembre, você foi o primeiro skatista patrocinado por marca americana que começou a fazer a ponte Brasil x EUA. Porque antes tinha que morar lá.
Foi bem isso. Porque eu fui muito novo. Já tinham ido uns caras. O (Rodrigo) TX já estava fazia uns dois anos. (Carlos de Andrade) Piolho mais tempo. O Bob (Burnquist)… Mas eu, fui muito novo. Quando eu fui estava na sétima série. Tinha escola, tinha obrigações. Não era uma coisa certeira, e meu pai tinha dúvidas se me deixava ir. Até então, meu pai foi conhecer os EUA faz dois anos. Eu morei dez anos lá e ele nunca tinha ido, nunca foi lá me ver. Então, tem uma preocupação do pai deixar o filho de 13 anos morar fora. Então eu ficava dois meses lá e voltava pra ficar dois meses aqui por causa da escola. Aí ficava um mês e meio viajando. Fiquei assim uns dois anos, até começar a me virar sozinho. Aprendi a falar a língua, porque é foda, eu não sabia falar porra nenhuma de inglês. Cheguei num país que eu não conhecia nada, não conhecia a cultura, não falava a língua. Até que então, o (Ricardo) Pinguim foi, fez umas três viagens comigo pra ficar de tradutor e falar por mim com os patrocinadores. E meio que cuidar de mim nas viagens. Porque, imagina, como que eu ia me comunicar com os americanos? Não ia dar certo. Fui bem cedo, em 2001. Começo de 2002, primeiro trampo que eu fui. Mas o (Adelmo) Juninho e o (Rodrigo) Gerdal já estavam no primeiro ano deles. Mas acho que sim, fui um dos moleques mais novos que cheguei lá. Eu não me lembro de moleques assim de 14, 15 anos que chegaram lá com tudo certo, porque os caras (da Flip) já tinham os planos, estava tudo engatilhado. Não cheguei na garra como o Tiago (Lemos)  e o (Carlos) Iqui, tendo que ralar pra chegar onde chegaram hoje. Eu já fui meio que engatilhado. Mas também, eu era moleque, sei lá, estava vendo meu sonho se realizando e eu estava só aproveitando. Não pensava nisso. Então, a hora que eu acordei pra vida… Acordei pra vida não, a crise meio que fez eu voltar pro Brasil. Que foi bem no ano que eu passei pra Pro. Eu ainda fiquei uns três anos lá sobrevivendo. Mas chegou uma hora que eu estava cansado, precisava mais de amor de casa. E ficar um pouco perto da minha família, meus amigos. Foi meio que isso que aconteceu. Um resumo.

Hoje, com sua estrutura de patrocinadores, você voltaria pra morar lá?
Hoje eu voltaria. Pelo jeito que está o país. Mas tem coisas que me prendem aqui hoje em dia. E também tem o lance de visto de trabalho, maior burocracia. Hoje em dia eu tô feliz do jeito que eu tô, podendo ir pra lá quando eu quiser. Fico o tempo que eu acho necessário e volto. Fico aqui, consigo curtir e fazer meus trampos também, como eu tenho a loja (cereziniskateshop.com), tem as marcas que precisamos trabalhar aqui também. Porque a gente vende aqui, não é lá. Então fico intercalando.

Tiago Lemos e Rodrigo Gerdal são seus colegas na BLVD. (@dannycerezini)

Tiago Lemos e Rodrigo Gerdal são os colegas de Danilo na BLVD. (@dannycerezini)

Qual a principal diferença de todas as marcas que você passou e agora a Boulevard?
Cara, hoje em dia eu me sinto mais uma família mesmo. Uma família de verdade. Quando eu estava em outras marcas, era uma família meio que ‘business’. E era mesmo. Quando eu era da Flip era mil maravilhas. Mas depois que você vê, você entende e vê a realidade, você se sente meio que um capacho, uma marionete, sei lá. Os caras fazem isso com você. Fizeram isso comigo, fizeram isso com o TX, fizeram isso com o Luan. Fizeram com todos brasileiros, com todos que passam pela marca. Eles têm tudo, eles que mandam. Quem que pagava as trips, tudo? Os caras não pagavam um centavo. Quem pagava eram as marcas grandes. Os caras colocavam dentro de uma Volcom, uma Quiksilver, uma Hawk, numa Vans, numa Nike, numa DC. Quem pagava tudo? Eram essas marcas. Eles sempre fizeram isso. Mas é um respeito que eles conseguiram impor no meio do skate. De sempre ter uma equipe pesada. Mas você vê, muita gente não aguentou a pressão. Vários caras, tipo, (Mark) Appleyard, Bastien (Salabanzi) meio que saíram… o Arto (Saari). Algumas marcas fazem isso também, mas são poucas. Sei lá, mas eu me vejo mais feliz hoje aqui. Por ser uma família do skate, não ser uma marca tão grande e estar crescendo aos poucos. Meio que indo pelos cantos, porque não tem como bater de frente com uma Flip, Element. Então hoje em dia eu me sinto mais realizado de estar crescendo junto com a marca, ao invés de chegar numa marca que já está bombando. BLVD tá todo mundo crescendo juntos. Nas marcas (grandes) não, tem que ralar dez vezes mais. Porque é aquela coisa, é fácil chegar no topo, foda é se manter…
Na Blind foi uma relação da hora. Porque quem cuida, faz tudo, é o Bill Weiss. O maluco anda de skate, passou perrengue igual todo mundo passou. É da hora, mas é uma corporação muito grande, envolve muitas outras paradas. Então chega na hora dos negócios, os caras não te enxergam. Isso que é o foda de várias marcas. Das marcas não, da gente ser estrangeiro e estar no país dos caras. Os caras tão certos, eu entendo também. Mas chega uma hora que o cara se revolta e prefere ficar na miudinha, pelo menos você tem um respeito maior. E construir uma história junto. Eu vejo assim. É diferente, você vê até a relação entre a gente. Você vê a relação de outras marcas, uma tour sinistra, você já deve ter presenciado. Mas é isso, tô feliz pra caralho, fiquei feliz com esse vídeo. Eu ainda não tinha visto nada, vi de surpresa total.

E essa é a primeira vez que tem uma première que você tem parte e ainda não tinha assistido?
Não, já tinha rolado isso. Mas, o engraçado é que isso rola muito lá (nos EUA). Os caras não deixam ver. Já rolou comigo, mas eu não lembro qual. Foram várias partes. E na real, foram as duas únicas partes que eu vi minha mesmo que eu estava editando, foi essa última da Cemporcentoskate, o “Do it yourself”, foi eu, o Felipe (Bocão) e o Leo (Reali). Então eu fiz tudo, participei de tudo na edição praticamente. Porque você quer ver ali, escolher o som. E essa última da Thrasher praticamente, porque a gente fez e mandou pra eles. Mas essa (do Quinto) os caras meio que fizeram de surpresa. Eu não sabia de nada, não sabia de som, não sabia como ia ser o vídeo. Eu pensava que ia ser mais longo. Pelo tanto de imagem que eu tinha, pensava que ia ser mais longa. Mas ficou perfeita. E bom que não é enjoativa. É um vídeo que termina de assistir e se quer assistir de novo.

Você prefere participar da produção ou ser surpreendido?
Vou te falar que os dois são da hora. A surpresa é legal porque é uma surpresa, já diz tudo. Mas participar também é legal porque você consegue encaixar, e quando você tá filmando até pensa nisso. Uma na base e depois uma de switch num pico diferente, já tem uma noção. Mas daí, às vezes o cara pega o cara que edita há 20 anos. Um cara que cansou de editar e quer fazer algo diferente, não quer mais fazer aquele ‘arroz e feijão’ que a gente tá acostumado. Então o cara vai além. É da hora, a surpresa assim. Eu fiquei feliz, não tem do que reclamar ou dizer. Os dois são legais.

E seu irmão (Bruno Cerezini) tá andando de skate?
Meu irmão tá. Agora ele acabou de ter um filho, então tá na correria monstra. Trabalhando também dois turnos. Ele anda, mas é de lua. De repente ele diz, “vou andar de skate”, anda um mês direto, fica com a base, começa a andar de volta até nos caninhos, de repente para e fica dois, três meses sem andar. De repente, (ele diz) “preciso andar”. Mas, cara, a base ele sempre vai ter. Mas agora, com o filho… daqui a pouco tá um pouco maior, vai até levar o moleque, se empenhar mais e dar uns rolês. Sempre vai estar no sangue e no pé. Esses dias a gente até andou na minirrampa ali em casa.


Vocês eram bem parceiros. Aí chegou uma hora que ele sumiu total.
Foi foda. Porque a gente sempre foi muito colado. Até hoje, até nossos amigos são todos os mesmos. Sempre viajando juntos, dez anos viajando juntos. Então na hora que ele começou a não acompanhar, comecei a sentir falta. A gente sempre teve uma relação boa. Tem brigas de irmãos, normal. Mas sempre tivemos relação boa. A gente começou junto, a gente fez tudo junto, viajava junto. Estudava na mesma escola. Eu fico feliz de hoje ele estar realizado e estar fazendo o que ele gosta e ter seufilho. É a vida, estamos ficando velhinhos mesmo.

E ele tá orgulhosão de você. 

Tá! Eu que diga, toda vez que encontro alguém, eles falam “seu irmão fala bem de você, só fala de você”. Uma coisa que eu não troco ideia com ele. Mas quando eu encontro as pessoas, elas sempre me falam. E quando eu estou nos lugares, a galera sempre fica me perguntando dele.

Felipe Bocão: os caras mandam email perguntando quanto custa pra fazer uma demo do Danilo e do Bruno. Até hoje! Já umas três vezes mandaram.

Switch flip bluntslide em Nova York. (Ricardo Napoli)

Switch flip bluntslide em Nova York. (Ricardo Napoli)