As bases determinadas de Nilo Peçanha

06 de julho de 2016 ● POR Redação Tribo Skate

O Rio de Janeiro tem uma forte tradição em revelar skatistas que dominam qualquer tipo de terreno. No skate atual, além de estar em grande fase, Nilo Peçanha se destaca pelo fato de ser ambidestro. Goofy nas transições e regular quando precisa estralar o tail na rua.
Nilo está acabando de gravar sua participação no aguardado vídeo da Crail Trucks, e durante as sessões de gravações por São Paulo deu uma passada na redação da Tribo Skate para bater um papo.

Entrevista Nilo Peçanha

Ollie na base regular. (René Jr.)

Por Sidney Arakaki

Você se lembra quando nos conhecemos?
Não lembro agora exatamente. Tem alguma coisa a ver com o (Sérgio) Garb?

Não. Uma vez a gente marcou de andar com o (Humberto) Zero. Ele nos chamou pra se trombar na Galeria River.
Lembro, lembro.

Eu cheguei cedo e fiquei esperando ele na lanchonete. Depois você chegou e também ficou lá sentado, mas a gente não se conhecia e também não sabia que o Zero nos tinha chamado. Aí ele chegou e nos conectou. E a lanchonete é exatamente o pico onde é a sua loja, a Carma.
Exatamente. Isso foi em 2007, 2006? Que doideira.

A loja tá rolando ainda?
Eu acabei de fechar a loja, mas fiquei três anos com ela na River. Eu cheguei a ter três lojas, mas foram fechando e fiquei só com a River. E agora desisti porque não estava conseguindo dar atenção. O mercado deu uma caída muito punk. Então resolvi fechar.

Eu achava que você tinha loja só na River.
A gente teve no Flamengo e no Leblon também. Três lojas. Mas durou pouco, as outras foram mais teste que não deram certo.

E o Marinho?
O Marinho tá com outra loja. Ele se juntou com outro brother e tá lá na River também.

Não tá roubada?
Não ficou na roubada. Abriu outra coisa.

Você que foi responsável pela reforma do bowl do Rio Sul?
Não, não fui o responsável. Foi a galera local. Na verdade, o shopping já queria reformar a pista. Aí, procuraram a galera da Rio Ramp Design. E a pista foi reformada, ficou perfeita. Aí eu levei esse projeto pra Osklen, pra gente fazer um evento que fosse da Osklen e da minha loja juntos. Um evento profissional e amador. Aí fluiu, rolaram dois e esse ano vai rolar de novo em setembro. É um campeonato que é bem pra galera mesmo. A gente não quer fazer nada gigantesco, a gente valoriza e tem a premiação em grana boa pra profissional. Tem premiação boa pra amadores. Campeonato pra todo mundo que vai ficar amarradão, vejo todo mundo feliz. E apesar de eu ter fechado a loja da River, eu tô com projeto de abrir novamente em outro lugar. Então até o final do ano acho que já vou estar com a loja aberta em outro lugar. Eu tô fazendo um collab com outra loja que já existe lá no Rio. Isso não interfere muito, vou continuar tocando a Carma, que é a minha loja, com boné, hardware, sei lá, eu não quero deixar o negócio morrer. Mas o campeonato vai rolar e é uma coisa muito legal que eu faço lá com a Osklen, que eles também me dão total autonomia. Eu que bolei o formato do evento e fiz tudo com eles e a gente tá até trabalhando nisso já. Antes de vir pra São Paulo estava lá desenvolvendo cartaz com eles, pensando na data. E tem algumas novidades, tô tentando cada vez mais profissionalizar o evento e tornar uma coisa anual que marque o bowl do Rio Sul, que é um bowl muito foda, que merece ter um lance anual. Pra até a galera de fora começar a vir.

Eu acho que lá é o lugar perfeito pra ser um evento referência como é o Bowl-A-Rama.
É, exatamente. Os caras do Bowl-A-Rama já até conversaram comigo uma época. Falaram que queriam fazer algo lá. A única coisa que questionam sobre o bowl, é que ele não tem coping block. E hoje em dia tem muito esse lance dos eventos de bowl serem com coping block. Mas isso é uma coisa que é fácil de resolver, botar um coping block ali é mole. Mas eu tô fazendo a minha parte pra pelo menos eu manter a chama acesa ali da galerinha. Que tem uma molecada no Rio andando bem, que tá começando a andar. Com o bowl de Madureira, os moleques da zona norte começaram a andar bem de bowl. Então, em cada evento que a gente tá fazendo, a gente vê a galerinha evoluindo. Isso é maneiro, então sempre que tiver esse suporte da Osklen pra fazer o evento, eu só sempre busco apoiadores pra premiar a molecada. Mas eles bancam a estrutura toda e tudo que a gente precisa. E me ajudam também na produção. Isso que é legal, a empresa abraçou todos os meus projetos. E o pessoal do marketing, o Daniel(Reznik), que tá sempre em contato comigo, é um cara muito sangue bom e tá sempre batalhando pras minhas coisas acontecerem lá. Então tá 100%.

Você tá na Osklen, patrocínio de roupas?
Sim. Roupa e óculos eu tô forte com eles. E até tênis também, mas tênis a gente tá desenvolvendo e é um processo meio difícil de chegar numa coisa realmente para o skate. Porque eles não tem nada específico para o skate ainda. Eu tô ajudando como posso. O processo está um pouco lento, mas eu acho que vai rolar.

Vai ser específico para o skate mesmo, pra manobrar?
Sim, eu dei todas as referências que eu tenho. Tudo o que eu gosto nesses anos que eu ando. Os caras estão tentando, mas eu sou bem exigente. Então a gente quer lançar uma coisa realmente boa para andar. E que eu use. Porque não adianta a gente lançar um tênis dizendo que é de skate, mas que eu não curta e continue usando outros.

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Frontside air goofy no snake do Maracanã. (Cortesia Osklen/Fred Vegele)

É verdade essa história que você tem uma viagem por mês pra qualquer lugar do mundo por conta da Osklen?
Não, isso não é verdade (risos). Minha parceria com eles é bem boa. Eu tenho um ‘budget’ de viagens. Eu consigo fazer bastante coisas, mas não é assim. Eu queria que fosse assim, pode até chegar a ser algum dia. Eu estava viajando mais. Agora com esse Dólar… tudo meu é em Real, então Dólar e Euro tá difícil de manter um ritmo de viagens tão frenético. E eu resolvi também dar uma desencanada de campeonatos esse ano, então viajei um pouco menos. Mas desde que entrei lá, fazia umas cinco viagens por ano, a média nesses três anos que estou lá na marca. Mas não foi esse lance de qualquer lugar do mundo, isso nunca existiu.

Mas é como se fosse.
É, metade disso, porque são cinco vezes. Uma por mês eu teria viajado doze vezes.

Mas tá ótimo.
Eu não tenho do que reclamar. A empresa me dá todo suporte, me ajuda em tudo que preciso. E me dá liberdade também pra fazer as coisas. Eu que escolho a galera que vai viajar comigo, fotógrafo, videomaker. Isso é legal, eles me usam como consultor. Tudo que eles fazem de skate me perguntam, querem que eu participe.

Você vai viajar e ainda pode levar o videomaker e fotógrafo?
Depende da situação. Se for pra um campeonato, normalmente eu tento botar em conexão um cara que já vai estar lá. Mas as vezes eu vou fazer uma trip pra produzir algo específico pra eles. Eu já fiz uma com o Rene Jr, por exemplo. O Paulo (Rodrigues) foi comigo pro Peru, fez uma tour lá, do sul ao norte. Rendeu pra caramba, esse material deve estar saindo daqui a pouco. Então é legal ter uma marca que não é ‘core’ do skate, mas que me ajuda a estar viajando com quem acredito que faz um negócio legal e que sempre andou comigo, sempre fotografou. Acho que é mais ou menos isso que a galera tem feito. Pega umas marcas que tem mais força financeira e acaba usando pra fazer projetos que sempre sonhou em fazer, que é viajar com os amigos, filmar e andar de skate.

Frontside feeble grind goofy. (Cortesia Osklen)

Frontside feeble grind goofy na antiga sede da Osklen. (Cortesia Osklen/Fred Vegele)

Sem pressão.
É, sem pressão, exatamente. Isso é uma coisa legal lá. Eles acreditam no meu trabalho. E eu acho que eles me patrocinam por isso, pelo que eu já faço. Não me cobram nada além, nem me pressionam por resultados em campeonatos.

Você tem contato com o Oskar (Metsavaht, fundador da Osklen)?
Eu tenho. Eu sou amigo dos filhos dele. Depois que eu entrei pra marca, eu o conheci. Porque eles andam de skate, surfam, fazem snowboarding. E ele está sempre lá, na criação, gosta de saber tudo que está acontecendo. A marca agora foi comprada pela Alpargatas, mas ele continua sendo o diretor criativo. Então ele tá sempre lá. E também, é um cara que escuta bastante. Isso é uma coisa legal, que até me surpreendeu quando eu comecei a negociar tudo com ele. E falar sobre os projetos do tênis. Qualquer tipo de coisa ele sempre me escutou bastante. E ele sempre atentou a equipe a me escutar quando o assunto fosse skate. Ele tem a consciência que como eu vivi isso a vida inteira, ele escuta bastante. Eu me sinto bem escutado pela equipe.

Você sabia que ele já foi colunista de revista de skate, nos anos 80, na Overall?
Sabia.

E ele já te comentou algo sobre isso com você?
Não. Eu nunca conversei sobre isso com ele. Mas eu sabia. Eu fiquei sabendo pela internet. Era o Doutor Skate, né?

E ele tem a pista ainda?
Lá tinha uma casa que era “tombada” (Patrimônio), que ele usava como consulado da Estônia. Porque ele é Consul da Estônia no Brasil. E do lado, tinha uma coisa construída, que era o escritório, onde tinha toda criação, e onde faziam tudo. Nesse lugar tinha um bowl, só que eles saíram de lá e foram pra um novo escritório, porque pediram o imóvel de volta. A casa continua lá, o bowl também, mas não é mais deles. Se quiser andar lá, vai ter que invadir porque tá abandonado. A gente até acabou de fazer um vídeo, que foi a última sessão no escritório. Andamos dentro de onde era o escritório, na antiga sede. Fizemos um vídeo chamado “The End”, que foi o Paulo (Rodrigues) que ajudou a filmar e fazer as rampas. Fizemos uns wallrides, umas rampas, que ficaram legais.

Qual a importância do bowl do Rio Sul pra você, pessoalmente?
Bowl do Rio Sul, quando eu era muito moleque eu comecei a andar ali.

Você é de Botafogo.
É, eu morava do lado mesmo, uma quadra. Eu ia andar na Urquinha. Era o desafio, você começava a andar na Urquinha.

Eu achava que você tinha começado a andar depois da época da Urquinha.
Não, tô com 28. Eu comecei a andar em 98. E você ficava um pouco melhor na Urquinha, ia pra Lauro Müller. E naquela época tinha muita gente andando bem de transição ali no Rio. Então você chegava ali na Urquinha, dependendo do horário, tinha que ficar esperando. Tipo, Alessandro (Ramos), Felipinho (Vilhena), Leo Careca, Pedrinho (Slivak), Alan Mesquita. Tinha que ficar olhando. Eu só sabia dropar e dar um stall. Eu ficava olhando e esperando os caras saírem fora. Eles saíam fora pra Lauro Müller e eu andava na Urquinha. Quando chegava na Lauro Müller eles estavam indo pro Rio Sul. Lauro Müller já era uma parada um pouco maior, então essa evolução era uma parada muito maneira que rolava onde eu morava. Que era andar na Urquinha, na Lauro e depois ir pro Rio Sul. E no Rio Sul era sempre desafio maior quando era moleque. Eu comecei andando assim, andando no Rio Sul e tal, só que daí eu parei um tempo de andar em transição e fiquei muito no street. E ia no Rio Sul só pra fazer uns carvings. A pista ficou muito áspera também durante muito tempo. Mas hoje em dia, que ela tá reformada e novinha, apesar de não me dedicar 100% ao bowl, eu tinha aquela pista ali na veia. Já assisti tour da éS footwear. Os caras andando ali, o (Eric) Koston, (Rick) McCrank. Coisas que ficaram na memória pra sempre.

Você chegou a ver o (Christian) Hosoi e o Bob?
O Hosoi eu não vi andando ali, foi antes de eu começar a andar. Mas o Bob na tour da éS, com o McCrank, Koston e o Kerry Getz, lembro que na época abriu minha mente. Porque eu só via os caras, de vez em quando, quando os caras conseguiam uma cópia do 411, fita, não é igual hoje que no celular tá todo dia sabendo a manobra que deram. Pra mim, uma coisa que surpreendeu, foi sempre ter visto o McCrank sempre fazendo mais partes de street e ele chegar lá no bowl e andar pra caralho! Todo mundo ficou de cara! E o Bob então, nem se fala. Lembro que estava eu e o Enxaqueca nesse dia, depois demos um rolé com os caras, deram umas peças pra gente. Uma parada que marcou bastante a infância.

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Frontside ollie transfer na base goofy em Madureira. (Cortesia Osklen/Fred Vegele)

E essa cena do Rio que você comentou, da Urquinha, os caras te influenciaram bastante também.
Me influenciaram muito.

Porque eles foram importantes também pro skate brasileiro. Teve uma época que o skate de transição no Brasil eram os cariocas. Nos campeonatos todo mundo ficava de cara.
Outro dia, por exemplo, eu andei com o Felipinho na Lagoa, e eu lembro dele antigamente fazendo umas coisas que eu achava muito bizarras. Eram uns caras mais velhos, já tinham ido para os EUA. Os caras chegavam com peças gringas na pista. Todo mundo ficava meio de cara, olhando. A galera admirava mesmo. E o Pedrinho também. Quando eu comecei a andar, ele tinha acabado de voltar dos EUA. Ele estava andando muito! Era uma parada que, se colocasse ele andando hoje em dia, na cena atual, continua sendo uma coisa absurda. Ele era um estilo tipo Grant Taylor, andava em qualquer lugar, muito, com estilo foda e natural, uma coisa que dava pra ver que é um dom mesmo. Então o Pedrinho, o Alan e o Bruninho Passos foram os caras que mais me influenciaram em transição quando eu comecei a andar. O Bruninho ficou um tempo sem andar, então eu vi toda a volta dele no Rio Sul. Eu era o molequinho da sessão e ele andando lá todos os dias, ele me passou muitas coisas. Eu nem lembro, não tenho a memória fresca de como era ele andando, mas eu sei que isso é até transmitido no meu skate. Muita gente me acha muito parecido com o Bruninho. Isso é maneiro, porque a gente é cria do mesmo lugar e acabou ficando parecido, sem eu perceber, sem eu nunca ter imitado nada.

Hoje você é a referência do Rio se formos ver.
Eu acho muito legal quando falam isso. Eu fico muito feliz de ter ajudado de alguma maneira, e estar ajudando ainda o Rio. Porque eu acho que na minha geração, eu fiquei meio sozinho ali, principalmente em transição. A minha geração sou eu, o Marcellinho (Gouvêa), Enxaqueca. E muita gente da nossa geração parou de andar, acabou indo fazer outras coisas. De repente até anda, mas não fazendo o ‘corre’ do skate. Então da minha geração é isso, o Marcellinho e o Enxaqueca no street, mas são caras com muita base de transições também. E eu meio focado na transição e ando de street também. Esse lance do overall é uma coisa da galera do Rio. Acho que até espalhou um pouco mais pelo Brasil, mas no Rio isso sempre foi muito forte, a galera anda em tudo.

Isso você acha que tem a ver com cultura, os picos proporcionam ou é o lifestyle?
Eu até estava pensando nisso outro dia. Eu estava comentando com um amigo meu, a gente estava ali na Roosevelt. A gente não vê tanta gente técnica no Rio. Agora estão surgindo, mas durante esses anos eu acho que era mais dos picos mesmo. Muitas minirrampas e muitos bowls. Então não tinha como a galera não ficar com base de transição boa. E agora a (praça) XV foi revitalizada, a praça Mauá, a parada tá bombando muito, o street de rua. Mas eu acho que é bem do lifestyle mesmo. O carioca é um pouco mais relaxado. Não é o cara que vai ficar o dia todo na XV tentando a manobra mais difícil do mundo. Mas eu sinto que a galera gosta de andar bem livre, andar em qualquer tipo de lugar. Isso acaba virando um skate mais overall.

Isso que eu sempre sinto quando vou pra lá. Tem muitos skatistas que estão curtindo andar de skate, não é igual São Paulo que é bitolado em querer viver do skate. Quer evoluir mas não está curtindo. Lá, estão andando em todos os lugares, se divertem e evoluem naturalmente.
Exatamente. Eu acho que é até uma coisa forçada pelo mercado. O mercado ficou muito tempo sem olhar pro Rio de Janeiro. Eu acho que a galera acabou desencanando e ficou andando, só continuou quem é verdadeiro. Porque os distribuidores das marcas gringas sempre estiveram em São Paulo. Não que seja um preconceito ou nada com carioca, mas a coisa estando aqui, as pessoas se ajudam, o cara vira team-manager e vai colocar um cara que ele conhece, que anda com ele e tá andando pra caralho. Não vai pensar em um cara que ele nunca viu na vida lá do Rio de Janeiro. Mas agora, parece que o skate ficou tão de verdade, com os movimentos ‘raiz’, que a galera começou a abrir os olhos pra lá. Você vê que o “We Are Blood” foi filmar lá. Com a Ademafia, uma parada super raiz que tá rolando. Então eu acho que esses movimentos ajudaram a cena do Rio a começar a bombar um pouco mais. Mas eu vejo exatamente isso, a galera anda porque quer estar com os amigos, tomando uma cerveja, não importa se está aprendendo manobra ou não. Se vai sair na revista ou não. Acho que essa é a parada lá.

Como você tá vendo a cena do skate em São Paulo e no Rio de Janeiro, que estão surgindo um monte de pistas boas ultimamente. Você considera boas essas pistas?
Considero boas, com certeza. Hoje mesmo eu andei numa pista que achei alucinante, nível gringo, a pista do Jockey. No Rio fizeram várias pistas boas. A galera da Rio Ramp Design faz um trabalho muito bom. Quando vai sair uma pista, a gente sabe que vai ficar boa. Porque eles estão envolvidos. Eu até moro com eles, divido apartamento com os dois sócios da RRD, o Sylvio (Az) e o Bruno (Pires). Eles sempre me pedem opinião, e eles são da galera mesmo. Então, se eles vão fazer uma pista em um lugar, eles contratam a galera local pra trabalhar juntos, escutam o que essa galera curte mais. Se curtem mais andar de street ou se é um pico pra ter um bowl um pouco maior. Eles estão sempre interagindo e eu tenho certeza que estão fazendo um trabalho maneiro. Aqui em São Paulo é a primeira vez que eu vejo uma pista na cidade que eu considerei realmente boa. Acho que todo mundo concorda com isso. E a Saúde também, que reformaram. Apesar de terem tirado lá o half, que eu acho que não deviam ter tirado, eu acho que ficou irada a pista.

Você tá andando mais em que tipo de terreno ultimamente? Claro que você anda em tudo.
Ultimamente eu tô andando em tudo, bastante. Eu fiz uma viagem agora pra Europa, pra Portugal. Eu andei só na rua. Em 15 dias eu andei só em uma pista. Agora eu tô filmando com a galera da Crail, eles foram pro Rio, a gente andou na rua. Andamos também no Arpoador, no Rio Sul. Basicamente é bowl e rua. Eu não ando muito em park de street, isso eu não tenho costume de fazer. Ou vou andar num bowl ou então na Praça do Ó, mas ali é um pico que nem considero muito uma pista, aquele padrão comum de street. A gente faz um rolezinho no solo, em vários obstáculos legais. Então eu tenho andado em tudo. A única coisa que eu não ando, que é uma coisa que eu até gosto, mas não ando porque não tem no Rio é um halfpipe. Se tivesse eu andaria. Parece que vai sair um em Madureira, mas eu não sei quando. A megarrampa eu já andei uma duas vezes, mas aqui também não tem como andar.

Agora você tá empenhado no vídeo da Crail. É um foco?
É, é um foco. Eu senti falta de realmente ter uma parte. Eu tenho uma parte feita, que já era pra ter saído há muito tempo no vídeo da Prisma.

Cadê o Prisma, Jesus?
(Risos) Esse vídeo aí virou lenda por enquanto. Aí, depois disso, eu comecei a andar muito em bowl e comecei a fazer muito os lances de campeonatos, viagens. E quando eu entrei pra Osklen, fazemos uns conteúdos, mas são coisas pra soltar na internet. Eu não foquei em fazer uma parte de vídeo pra eles. E quando a Crail veio com esse lance e me chamou pra fazer, eu até soube um pouco no final do projeto. Eu comecei uns dois meses atrás a filmar. Eu tô me empenhando, tentando fazer o que der.
Eu tô focado no vídeo da Crail porque é uma marca que eu tenho uma parceria há algum tempo.
O Eric (Veloso – videomaker da Crail) passou tempo comigo lá filmando. Agora eu vim pra cá e tô filmando com ele também. Eu acho que tá fluindo e vai ser legal. Porque, quem anda de transição, que é da equipe hoje, acho que é eu, o Otavio (Neto) e o (Lincoln) Ueda, que tem um foco mais em transição. Tem uma galera que anda, claro, o Marcellinho, o Enxaqueca, mas eu acho que vai ser uma montagenzinha minha mais com o Otavio e com o Ueda.

Não vai ter uma parte individual?
É, parece que o vídeo não vai ter partes individuais. Vai ser uma montagenzona. Acho que algumas pessoas vão ter partes, mas não vai ser aquele vídeo separado por partes de pessoas. Enxaqueca, por exemplo, eu sei que é um cara que tem muitas imagens, então vão soltar algumas pessoas com poucas imagens dentro da dele. Eu acho que vai ser mais ou menos assim. E eu tô amarradão de estar filmando. Fazia tempo que eu não dava esse gás assim, de estar na rua, fazendo missão e tentando filmar, achando picos novos. Isso tá sendo bom.

Frontside flip na base regular. (Cortesia Osklen/Bruno Passos)

Frontside flip na base regular pela Califórnia. (Cortesia Osklen/Bruno Passos)

Te dá mais motivação também?
É, com certeza. Eu tinha ficado um pouco de saco cheio de viajar só pra competir e fazer conteúdo descartável, que você tá na trip, vai lá, corre o campeonato, faz umas fotinhos, já lança. E não é um negócio que você vai ver daqui um tempo e vai curtir, como uma entrevista impressa ou então uma parte de vídeo que a galera lembre e que tenha umas coisas que inspire pessoas que estão começando. Eu acho isso muito maneiro, tô vendo isso como um novo desafio. Ter essa parte e estar na Crail, que é uma marca que eu admiro pra caramba toda a história e fico felizão de fazer parte do vídeo deles.

Qual a previsão de lançamento?
Parece que é no final de agosto, setembro. Não dá pra dar certeza, porque vídeo é sempre…

Mas você tá nas missões agora, com pressão que tá acabando o tempo pra filmar ou tá fluindo naturalmente?
Tá fluindo naturalmente. Foi bom porque o Eric foi pro Rio, então fiquei dez dias filmando com ele e rendeu muito. Já foi um bom começo e fiquei bem tranquilo. Aqui em São Paulo a gente tá fazendo as missões, mas também sem forçar nada e tá fluindo. A gente vai ver como vai ficar o resultado no final. Eu voltando pro Rio vou tentar filmar com algum brother de lá. Até o último dia que eles disserem que dá pra mandar imagem, eu vou estar focado nisso e tentando deixar minha participação cada vez melhor.

Vai ter mais manobra de goofy, regular, switch ou fakie?
(Risos) Isso aí eu quero ver o que a galera vai achar. Porque tem de tudo. Tem eu andando nas duas bases, no street e em transição. Acho que isso vai ser interessante da galera ver. Porque tem muita gente que não conhece, principalmente a galera do skate. Vai ser interessante ver o que os caras vão achar, de uma coisa diferente. Porque eu vou estar andando num bowl e daqui a pouco no street na outra base. E é meio que imperceptível. Se o cara não estiver atento, ele não se liga que eu tô de switch ou em outra base.

Backside air goofy na megarrampa. (Cortesia Osklen/Bruno Passos)

Backside air goofy na megarrampa. (Cortesia Osklen/Bruno Passos)

Mas na transição você consegue andar de switch?
De bowl eu sou goofy e de street ando regular. Eu consigo fazer manobras nas duas bases nos dois lugares. Mas eu tenho minha base definida em cada lugar. Então quando eu vou andar de goofy no street, eu tô de switch. Eu consigo remar normal, mas na hora de manobrar, eu sinto aquela dificuldade de estar de switch mesmo.

Você usa qual mão pra escrever?
Com a mão eu uso a direita. No surf, qualquer outro esporte que eu faça de prancha, eu vou com o pé direito na frente, que é como eu ando no bowl. Só pro street que é uma coisa diferente.

Tá ligado que tem o Lucio Mosquito, que é goofy no skate e regular no surf? E o Dudu, Carlos Ribeiro, que escreve com a mão direita, joga futebol com a perna esquerda e anda de skate nas duas bases perfeitamente.
Bizarro. O Bob também tem alguma coisa.

Vocês são todos de outro planeta.
Você percebe que o Bob tá de switch, mas ele tem a mesma habilidade praticamente. O Bob, eu sinto muito um lance de ele conseguir transferir pra fakie. Quando eu vejo ele saindo de switch, eu vejo ele dando um aéreo de switch, parece que ele consegue se imaginar de fakie. E ele volta as manobras como se estivesse andando de fakie. Sei lá, é uma impressão que eu tenho. De repente isso nem passa pela cabeça dele.

E é foda porque ele é um dos precursores do switch. Antigamente não existia switch. Você já cresceu, começou a andar tentando andar de switch.
É, foi fluindo. É legal porque tem algumas manobras que eu faço, por exemplo, no bowl. Eu tenho facilidade pra dar uns aéreos, eu consigo fazer nas duas bases. Flip eu também consigo. Por exemplo, flip na transição, se eu estiver na base do street eu me sinto bem confiante. A parada é mais fácil, parece.

Você já conheceu alguém com skate similar, essas características? Ou alguém que tenta se puxar pra andar igual você?
Que tenta eu ainda não conheci. Mas eu lembro que o Yann Jyh Wu, do Rio, tinha algo parecido.

O frontside air 360! Nas duas bases.
Eu lembro do campeonato de minirrampa que vi ele andando. Ele fazia a linha toda de goofy, parava de nose e voltava de switch frontside air 360. E no street ele também tinha esse lance de andar de regular, mas tinha manobras que ele dava de goofy com mais facilidade. E tem um cara que me marcaram no Facebook, um cara andando em Venice, ele faz a mesma coisa, vem andando no street dando várias manobras e entra no bowl na outra base e também consegue dar aéreo, como eu faço. Foram essas duas pessoas que eu já vi.

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Frontside feeble grind na base goofy em Madureira. (Cortesia Osklen/Fred Vegele)

 

 

 

 

 

 

 

Nilo Peçanha conta com os patrocínios Osklen, Carma Skateshop, Crail Trucks, G-Shock, Pocket Pistols, Lixas Hood, The Search e Bar 399.