Aos 35, Gerdal é um dos cinco do Quinto

12 de maio de 2016 ● POR Redação Tribo Skate

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Rodrigo GERDAL Petersen. (Cortesia LRG/Paulo Macedo)

Rodrigo “Gerdal” Petersen é um dos skatistas brasileiros pioneiros a desbravar a Califórnia com o objetivo de viver como profissional autêntico de rua, sem precisar participar de campeonatos para pagar as contas. Ele se sacrificou por anos, abriu as portas para as gerações seguintes e o reconhecimento – que não foi fácil – colhe nos dias de hoje, principalmente via patrocínios como Nike SB, LRG e BLVD Skateboards.
No próximo dia 20 de maio estreia no The Berrics, “Cinco”, o novo vídeo da Boulevard, onde o curitibano tem uma das partes de destaque. A première mundial aconteceu no começo do mês em São Paulo, e na passagem pela cidade, Gerdal deu uma entrevista exclusiva para a Tribo Skate.

Por Sidney Arakaki

Agora você está só na LRG Brasil?
Depois do “Give me my money, Chico“, teve algumas mudanças nos EUA. Mas eu ainda tive a oportunidade de continuar na LRG pelo Brasil. Fui transferido. Mas eu ainda tenho uma boa relação com os EUA, mesma coisa. O foco maior agora é no Brasil.

Na sua calça (collab de moletom lançado recentemente pela LRG) tem até o Brasanation. Você que popularizou.
Na verdade, eu fui o primeiro a postar. O primeiro hashtag fui eu que fiz. Na verdade, foi até o team manager dos EUA, que um dia ele passou pra me pegar na rua da LRG e falou, “cadê o resto da Brasanation?”. A partir daí a gente começou a botar a hashtag. E hoje em dia tem bastante gente usando. Mas a gente começou a usar pro pessoal que mora nos EUA, a gente que tá lá. Uma forma de representar a nossa nação fora do Brasil. É um grupo de amigos que mora lá.

Na Boulevard você está desde o começo?
Não, eu entrei depois de um ano. Ela começou em 2010 e eu entrei em 2011.

Que é uma extensão da Listen (Skateboards).
Uma extensão da Listen. Na verdade, era pra ser a Listen, mas teve um problema com o nome. E aí eles resolveram mudar o nome e fazer a Boulevard, uma coisa nova. Eu entrei depois do primeiro vídeo, “Stay in front“. Que foi logo depois do “Give me my money, Chico”.

Você tá ajudando a dar uma direcionada na marca também? Você foi o primeiro brasileiro.
Eu ajudo bastante no que eu posso, pela história da Listen. Na Listen eu fui, não só por ser brasileiro, mas eu, o (Danny) Montoya e o Gee (Rob Gonzalez) começamos todos juntos. Primeiro atleta fui eu. E depois o Brian Brown e o Gabriel De la Mora. E o Jose (Pereyra) e o Nate (Fantasia). Então já tem uma história de anos. E eles sempre me falavam, a hora que você quiser vim pra BLVD… E acabou acontecendo a história com a Organika não dando certo e nada melhor que voltar à raiz.

Os principais skatistas na marca hoje são brasileiros.
São brasileiros. É muito louco porque eu não imaginava ter uma abertura assim numa marca americana. De ter palavra, poder conseguir fazer o que eu acho que é certo. E hoje em dia a gente tá conseguindo trazer todo mundo junto, todos esses moleques. Não só eu, mas como o Montoya e o Gee, também enxergam, gostam muito porque também são latinos. Então o calor é diferente. Não é uma coisa que precisa ser o melhor, entrar nos X Games, Street League. Não é isso. Um sabor, uma coisa que é viver o skate. Eles amam muito o skate também. E não tem nem como. O Montoya foi o primeiro maluco a dar nollie heel noseslide descendo um corrimão. Antes do (Eric) Koston. Primeira capa foi dele, na Transworld, de manobra de nollie heel. Então, os caras têm muita história. Eles são latinos também, então acho que por isso deu tudo certo e hoje em dia tem essa abertura. E hoje a gente consegue mostrar o Brasil de dentro pra fora. Você vê, o (Carlos) Iqui, o (Tiago) Lemos, o Wilton (Souza), o Pedro (Biagio). Eles têm uma coisa diferenciada do normal, do Brasil. Então hoje a gente tem essa facilidade de conseguir mostrar e continuar com estilo. E isso que é o mais importante do skate, o estilo. Isso que a gente tá tentando fazer. Tanto é que o vídeo foi curto e objetivo. Uma coisa ESTILO. Eles (Montoya e Gonzalez) sempre mostram essa coisa em todas partes de vídeo deles, em tudo o que eles fizeram. Tá tudo semeando para esse caminho.

É legal porque essa molecada é de uma geração que foi bastante influenciada pelos brasileiros. Skatistas profissionais brasileiros, às vezes até mais que os gringos.
Pelos dois na verdade. No começo não tinha. (anos) 90 era difícil, até entender o que era skate. E ter os vídeos gringos, e ver, ter essa influência, eram os brasileiros (que influenciavam). Fabio (Cristiano), Piolho (Carlos de Andrade). Principalmente meus ‘home town heroes’, tipo, os locais que eram os heróis. De Curitiba tinham vários, que era mais do que os gringos. Naquela época, os caras da Psico Street, da Maha, o (Marcelo) Kosake mesmo. O Mizael (Simão). Eram vários locais. (Raphael) Braciak, Postal, Gugu (Fabrício Costa). A informação era boca a boca, tinham aqueles caras que você via em campeonatos da Maha. Aí depois vieram as informações dos vídeos. Aí veio Menace, Girl, Chocolate. Pra mim, pelo menos, comecei a entender o que era o skate.

Rodrigo GERDAL Petersen. (Cortesia LRG/Paulo Macedo)

Rodrigo GERDAL Petersen. (Cortesia LRG/Paulo Macedo)

E dentro da BLVD você tem mais alguma posição além de ser skatista?
Não, todo mundo faz tudo. Não tem essa.

Felipe Bocão (brand manager da BLVD no Brasil): Do it yourself! Marca independente, tá ligado? Por mais que esteja dentro de uma distribuidora grande lá, o investimento é mínimo. Então a gente faz porque a gente gosta. Se a gente não fizer isso, a marca realmente morre. Se a gente não fizer um pouco de tudo. Se eu não fizer um pouco de tudo, a marca morre. Se o Gerdal não fizer tudo que ele faz, a marca morre. Ele anda de skate, edita os vídeos. O vídeo do Kilian (Zehnder) ontem, foi ele que fez. A gente estava ontem (na première), ele estava renderizando o vídeo ainda. Veio no avião editando. Vem, anda de skate, dá autógrafos, edita vídeo, faz as conexões, envia os convites, é linha de frente. E o Montoya é a mesma coisa. É corretor de imóveis, anda de skate, cuida da marca, dirige o vídeo cuida do Iqui lá, arruma apartamento pro cara morar, negocia o contrato do moleque. O Gerdal coloca o Pedrinho na LRG, faz não sei o que. A gente faz de tudo, não tem como.

O Gee. Todas as artes, a maioria, é ele que faz. Os títulos, é ele que fez. Quem tá de fora não vê isso, mas a gente que acaba movendo toda essa montanha.

Mas se os moleques conseguissem entender a extensão do que o Gerdal faz, e além de tudo andar de skate e fazer as partes (de vídeo). Soltou uma parte ano passado, soltou esse ano, ano retrasado teve a dos X Games. Tá sempre fazendo, nunca tá parado. Se os moleque conseguissem entender a extensão disso tudo, além do que ele faz andando de skate, todo resto que ele faz.

E por uma coisa que eu acredito. A marca, a gente não é dono, mas a gente tem um carinho especial, a gente tem a liberdade de fazer o que a gente quer. E consegue expressar isso através do nossos vídeos, através de tudo. E também não é pelo dinheiro, óbvio. A gente não tem milhões como as corporações tem, como a Element.
Muita gente estava falando, comentando, “já estava no hora dos moleques passarem pra Pro”. Eu também concordo, estava na hora. Só que tem um trabalho a ser feito.

Não é só nível de skate.
Não é só nível de skate! A gente construiu uma história pra que isso acontecesse. A gente fez tudo, todas as conexões pra fazer as partes na Thrasher, entrevistas. Tipo, o Iqui não vai falar pra Thrasher pra fazer uma entrevista, não é assim que funciona. Que é a diferença do Brasil. Aqui o moleque chega pro fotógrafo, “vamos fazer a entrevista?”. Que não é o certo, eu acredito. Tem um planejamento, até pra que isso influencie na vida dos moleques, pra eles aprenderem a se organizar e ver que as coisas não é só pra sair pedindo.

É consequência.
É consequência! Aqui você pede pra entrar numa marca. Não é assim! Tudo se encaixa. Tipo o Pedro e o Wilton, eles se encaixaram com a Boulevard, eles têm a identidade. Vários caras tentaram, vão tentar e não vão ser. Porque, como eu imaginava no passado ser de algumas marcas, não adianta. Por mais que eu acerte o 900 nosegrind, não vou entrar. Não é assim. Não importa o tanto de manobras. Sua atitude é tudo. É por aí.

A BLVD é uma marca que tem uma identidade já.
A gente tem que manter isso.

E é cada vez mais difícil ter marca com identidade hoje em dia.
É. Uma grande tristeza é o que tá acontecendo com a Girl e com a Chocolate. Mas eu também penso assim, é um ciclo. A cada 15 anos tudo muda. A Girl tá aí 20 anos.

Molecada nova não sabe o que é Girl, Chocolate.
Não sabe. Se você perguntar quem é Rick Howard, não sabem. Até o nosso vídeo, o Amburguer, que lançou o Tiago, eles não sabem. Nem sabem que existe o vídeo. É o futuro, a gente tem que se adequar ao que é agora, não adianta.

Você tá com quantos anos?
35.

Como você se sente, produzindo esse vídeo agora com 35 anos?
Cara, me sinto bem, na verdade. Se eu não tivesse outras coisas que me preocupasse, seria mais fácil. Mas eu escolhi isso. Também não é culpa, não adianta ficar me lamentando. Eu escolhi tudo isso e tá funcionando. Tem que ser assim. E não tem muito chororô. Eu me sinto bem, meu corpo tá bem. Lógico que às vezes fica mais difícil, porque a gente é muito crítico e a gente quer mostrar o melhor. Então, cada vez fica mais difícil você fazer o diferente. E também não é legal ficar repetindo, ficar fazendo a mesma manobra de dez anos atrás. Quero evolução. Menos é mais. Às vezes você pode dar cinco manobras bem loucas que vai fazer o mesmo impacto que fizer cinco minutos de ‘linguiça’. Mas eu procuro evoluir, eu quero continuar conseguindo fazendo por mais alguns anos. Eu sei que uma hora eu não vou aguentar mais mentalmente, não é nem fisicamente. Mas quero continuar sempre na indústria, sempre estar envolvido, porque eu acho que eu devo pro skate, devo pra tudo isso. Na minha vida, foi tudo o que skate que me deu. Não adianta eu virar as costas e querer fazer outra coisa.

Assista ao vídeo de apresentação do Gerdal na BLVD, com depoimentos de Paul Rodriguez, Chad Muska, Tom Penny: