RPW: Os Reis do Bate Cabeça Música

RPW: Os Reis do Bate Cabeça


Texto: Eduardo Ribeiro // Foto: Cristina Sá

Numa época em que o rap nacional era pautado por batidas lentas e aquela postura sisuda, o trio paulistano RPW trouxe para a cena uma abordagem mais agitada, positiva e alegre. O alto astral do grupo formado por Rubia, Paul e W-Yo ajudou a estreitar os laços do movimento hip hop com as culturas do skate e do hardcore. Isso foi há 25 anos. E a história ainda não acabou.*

*Nota do repórter: Ironicamente, um mês após a realização desta entrevista, em que o grupo inclusive revelava altos planos para 2017, o RPW anunciou o seu fim. Para a versão on-line da matéria, que vocês apreciam logo abaixo, achamos válido incluir uma declaração do W-Yo comentando o encerramento das atividades. Se liguem aí:

Vocês pegaram os anos de ascensão do hip hop, a “Golden Era”, nos anos 90, e também os seus desdobramentos. O que acham dos novos elementos que estão transformando o rap?
O RPW nos anos 90, durante a chamada Golden Era, já estava além do tempo. Por exemplo, o padrão das bpms (batidas por minuto), era de 78, em sua maioria, e o primeiro clássico nosso, “Pule ou Empurre”, de 93, tem 110 bpms… rs!

Muita molecada famosa de hoje já assumiu pessoalmente pra gente que somos referência pra eles também. Logo, nossa missão é sempre se reciclar, porém mantendo a essência de sempre. Novos elementos são sempre importantes, só esperamos que a real intenção do rap não se perca na caminhada.

Na visão do RPW, o rap nacional ainda é pautado pelas tendências gringas? Essa influência hoje continua sendo positiva?
Sempre será um pouco. O rap brazuca ficou mais independente nesse sentido e, ao mesmo tempo, mais sem graça de se ouvir hoje em dia. O rap está órfão aqui.

Como vocês ficaram amigos e qual era o rolê de cada um no hip hop, no underground, na música, no skate, antes de formarem o RPW?
O nosso documentário, RPW 20 Anos (2012), conta a nossa história cronologicamente. No resumo: O DJ Paul fazia as festas e bailes da época “função”, a Rubia já curtia essas festas e num salão em comum ele se ofereceu a tocar pra ela.

O W-Yo foi o último a entrar, e trouxe para o grupo a sua raiz thrash metal como baterista de uma banda. Ele andava de skate e já ouvia hardcore também. Entrou como dançarino, e, aos poucos, foi inserindo as misturas crossover no grupo. Portanto, é o responsável pela formatação do RPW ser assim até hoje.

Aquele lance de “pular ou empurrar” foi um jeito de agitar que vocês inventaram? Ou o movimento já estava rolando e vocês acabaram fazendo a música pra representar a parada?
Segunda opção. Em meados de 1992/93, no programa Yo! MTV Raps, apareceu o clipe do grupo Onyx, com a música “Slam”. A identificação do W-Yo foi instantânea, pois combinava o mosh [roda de pogo na pista] com os stage divings [saltos de cima do palco], coisas com as quais ele já estava acostumado no metal, mas que, no rap, era um lance totalmente inédito.

Ele compôs a letra de “Pule ou Empurre” e a mostrou num ensaio. Demos o nome ao estilo de “bate cabeça”, e começamos ali, entre um show e outro, a conquistar diferentes públicos, não só do rap, como pixadores, skatistas, punks e headbangers. Depois que gravamos, houve um divisor de águas no rap: antes do RPW e pós-RPW. Graças a Deus, escrevemos uma página importante na história do rap brazuca. O RPW criou o estilo bate cabeça no Braza, é isso!

Ainda rola bate cabeça no rap?
Sem dúvidas, ainda rola. Virou uma tendência dentro do rap daqui. Hoje, ainda existe a U.B.C. (União Bate Cabeça), que começou com uns quatro moleques na zona norte, tomou força, se organizou, espalhou-se pelo Braza inteiro, e está sempre em nossos shows. Quando o bate cabeça começou, nossas referências eram principalmente Onyx, Cypress Hill, House of Pain, Body Count, Lords of The Underground, Da Bush Babees e Da Youngstas, entre outros…

Além de terem aberto pro Cypress Hill e pro Wu Tang Clan nas fases em que esses grupos estavam bombando por aqui, que outros momentos históricos marcantes na história do RPW vocês poderiam comentar?
Fora esses dois, um bem importante foi no extinto palco no Vale do Anhangabaú, no evento em celebração aos 300 anos de Zumbi. Só os grupos de rap ponta da época tocaram. Estava lotado até a Praça do Correio e, mesmo com chuva, ninguém arredou o pé.

Certa vez, no extinto clube Sra. Krawitz, como num passe de mágica, os cabos dos microfones sumiram, e resolvemos fazer o show na garganta pura mesmo: três sons com a base no volume mais baixo e o público pirando… rs!

E, também, uma experiência louca foi tocar na extinta Casa de Detenção de São Paulo, no Carandiru, Pavilhão 2. Foi uma festa de dia das crianças, e teve shows com Verbo Pesado, RPW e Detentos do Rap, cujos integrantes estavam cumprindo pena lá mesmo. Enfim, rolaram várias paradas loucas, pra lembrar tudo só puxando as fitas que temos. Rs!.

Quem são os grupos/MCs irmãos do RPW na história da cena de São Paulo?
Hoje podemos falar alguns: Verbo Pesado, Filosofia de Rua, WU Fólogos, Wu Clan Negril, Rica Silveira e Rappin’ Hood, entre outros.

O skate ainda ocupa o mesmo espaço que nas antigas na vida do RPW?
Na real o W-Yo é quem anda de skate no grupo. Somos apreciadores por causa dele. Como ele mesmo diz, antes eram três horas de sessão e meia hora tomando refrigerante (detalhe, ele era menor de idade… rs!). Hoje, ele fala que é meia hora de sessão e três horas de cerveja (rs!).

O skate será sempre uma das essências do RPW. Os skatistas foram os primeiros a assimilarem a ideia do bate cabeça e sempre nos apoiaram em todo o Braza e em todos os champs onde tocamos. A ligação está em registrada nosso slogan, que também é uma música: “Sexo, Cerveja, Skate, Rap e Hardcore”.

Tem alguma novidade do RPW que já possam adiantar aos leitores?
Bom, agora em outubro nós comemoramos, numa festa da pesada, as nossas bodas de prata. Com 25 anos de carreira, sentimos a necessidade lançar um play inédito ou algo assim. Também lançaremos a confecção RPW Wear, e pretendemos tocar menos para tocar melhor.

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[ATUALIZAÇÃO]

E aí Wagner, conta pra gente esse lance do fim repentino do RPW.
W-Yo: Saiba que foi a última entrevista essa sua do RPW. Resolvemos parar as atividades na boa, man.

Mas por quê? Algum conflito de interesses ou falta de motivação?
Motivos pessoais, outros rumos e, na real, rolou mais da parte da Rúbia e do DJ Paul isso. Fui pego de surpresa. Quando soltamos a nota, eu li três comentários pra lágrima descer. Neste fim de semana lerei e agradecerei a todos.

Você vai continuar fazendo rap?
Agora seguirei com meu projeto, que retomei depois de catorze anos parado, o Verbo Pesado. O single do Verbo já viralizou (confira abaixo), e contarei com sua força na divulgação, hein! É contra esses rap modinha. Fora isso, ano que vem gravarei meu solo.

Por Redação Tribo Skate
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