Static Control: a volta do hardcore moleque What's Up

Static Control: a volta do hardcore moleque


Entrevista por: Eduardo Ribeiro
fotos: Nathan Motta

Static Control é um quarteto de São Paulo que revisita o hardcore-skate-punk no espírito dos EPs do 7 Seconds. Direto, energético e cativante. Remete ao melhor do estilo old-school e traz na formação caras de bandas impactantes no cenário, como No Violence e Futuro. Eles já soltaram uma demo com cinco sons, e em breve sai novidade pela True Spirit Records. Confira na íntegra a entrevista que está na edição 247/agosto!

Então, Pedro, quer dizer que você queria uma banda pra ficar só no vocal quando decidiram montar o Static Control?
Pedro: Exato. No segundo semestre de 2014 o Alemão me chamou para fazer uma banda nessa pegada, tipo os EPs do 7 Seconds e eu topei na hora, mas falei que queria cantar. Eu sempre toquei guitarra em todas as bandas, queria variar um pouco e ficar livre no palco. A gente pegou uns ensaios só nós dois, fizemos as músicas e gravamos, já pensando em chamar outras duas pessoas depois que estivesse tudo pronto. Mas faltava terminar umas letras, então eu deixei para gravar a voz depois e nesse meio tempo a gente resolveu chamar o Jay P, ficamos pensando em opções para a guitarra, até que acendeu a lampadinha, “e se a gente chamasse o Ruy Fernando?” O Ruy ficou anos morando longe de São Paulo, mas tinha acabado de voltar. Daí chamamos, ele topou e foi lindo.

Foto: Nathan Motta

Foto: Nathan Motta

Vocês chegaram a fazer testes com outros guitarristas? O que aconteceu, a galera não conseguia chegar na sua pegada do instrumental?
Pedro: Não, nem chegamos a testar ninguém e as músicas são bem simples, eu acho. Mas a gente queria uma pessoa que estivesse disponível, tocasse razoavelmente bem e mais do que isso, conhecesse e curtisse as mesmas referências. Não apareceu ninguém que preenchesse todos esses quesitos e então resolvemos botar o Ruy no vocal. Eu não toparia abrir mão de cantar se fosse outro vocalista, porque fiz a banda meio que para isso. Mas no caso dele valeu a pena.

O que é “Static Control”? Tem um conceito por trás desse nome?
Pedro: Quando já tinha banda, gravação, tudo e só faltava nome, a gente fez uma lista com um monte de palavras e nomes, mas queríamos algo que soasse bem, ficasse na cabeça e tivesse a ver com a proposta da banda. Uma das palavras era “Static”. Não quer dizer “estático” no sentido de ficar parado, quer dizer estática, tipo eletricidade estática, interferência, aquele barulho de TV fora de sintonia, de interferência em som, etc… E control veio de “In Control”, que é o nome do disco do Stalag 13. Também tem a música do Indigesti, “Silenzio Statico”, que é um clássico. Daí a combinação soou bem e fica uma coisa interessante, porque a estática dá ideia de atrito, um conflito, algo fazendo um barulho. E daí é o controle sobre isso, um controle da estática ou uma estática controlada, ou o sistema tentando controlar a estática que ele mesmo causa, enfim… Cada um pode interpretar do jeito que achar melhor.

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Ouça as músicas da banda (link)!
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Achei legais as construções das letras de vocês, e o jeito de mandar a mensagem. Como é que surgem essas letras. De discussões que a banda tem no dia a dia?
Pedro: Não tem nada formal. Algumas letras são minhas, várias do Ruy, outras do Jay. Cada um traz as suas e a gente vai encaixando. Se tem alguma coisa que não soa bem ou que a gente acha que está com um sentido meio dúbio ou estranho, o resto da banda dá pitacos e a gente arruma. Mas não rola nenhum processo formal nem é uma coisa que dê muito trabalho. Cada um escreve sobre o que está pensando e sentindo, o resto da banda dá aquele grau se precisar e boa!

Ruy: Mas tudo é discutido, esses pitacos aí não são de estilo só não, são de conteúdo e de sentido, nós estamos moldando uma personalidade política da banda por meio desse consenso das letras.

O papo da letra “Comodismo”, que defende o vegetarianismo, foi muito reto. O que vocês acham de gente que diz que os humanos estão no topo da cadeia alimentar?
Ruy: Essa letra foi meio que um desabafo pra várias desculpas que eu ouço de gente que voltou a comer carne. Nunca na história da humanidade nós tivemos tanto conhecimento sobre alimentação e sobre alternativas que não sejam de origem animal, e ao mesmo tempo nunca nossa alimentação foi tão mecânica e cruel, usando seres vivos como máquinas ou coisas. Quem tem a informação hoje e continua a comer carne ou volta a comer carne, é porque não se importa, porque coloca seu prazer ou sua preguiça como sendo mais importantes do que fazer a coisa correta, que é não causar mal desnecessário.

Foto: Nathan Motta

Foto: Nathan Motta

Topo da cadeia alimentar… engraçado, um monte de gente fora de forma, magra ou gorda demais, querendo se equiparar a predadores na natureza, que piada. Só comem carne pela industrialização do abate e por comprarem a carne sem qualquer traço de que aquilo foi um bicho, queria ver irem caçar mesmo, jogando o iphone na vaca e vendo se ela morre.
Pedro: É um assunto que paradoxalmente (ou não) está mais em voga na sociedade em geral mas menos em voga do que já foi no hardcore, sendo que o hardcore sempre esteve à frente nesse assunto. Então o Alemão sugeriu uma letra reafirmando esse tema, o Ruy escreveu e a gente deu umas sugestões aqui e ali.
Sobre as pessoas e suas opiniões, eu não me importo nem um pouco, não dá para convencer quem não quer ser convencido e eu nem tenho vontade de sair por aí pregando nada. É mais uma questão de expressar uma posição e deixar ela disponível para quem quiser aproveitar.

Já passou um tempo desde que lançaram a demo, então vocês já devem ter algum material novo pra gravar ou soltar, não é? Tem alguma coisa nova pra esse ano?
Pedro: O primeiro EP em vinil com a gravação da demo e mais duas músicas inéditas está na fábrica e vai sair pelo selo do nosso amigo Paulo “Sujão”, o True Spirit. Fora isso a gente já tem umas músicas novas também. Quando chegarmos num número bom de sons novos a gente grava de novo e se alguém quiser lançar a gente lança mais um disco, ou faz outra demo.

 

 

Nos shows que a banda já fez até aqui como tem sido a repercussão, o feedback da galera? Vários órfãos do No Violence colando?
Pedro: Ultimamente os shows de hardcore em geral andam meio miados, então são sempre as mesmas pessoas que vão, mas muita gente elogiou bastante e acho que todo mundo que viu curtiu. Acho que boa parte da molecada mais nova não conhece muito o No Violence, porque é uma banda que acabou há mais de 10 anos. Mas o interessante é que por causa do Ruy sempre tem uma galera mais velha que não costuma aparecer muito nos shows das bandas mais novas. O negócio é que o No Violence sem dúvidas foi a banda mais influente e significativa para quem viveu esse nosso lado do hardcore de São Paulo nos anos 90, então rola essa comoção pelo Ruy estar de volta à ativa, tanto para uma parte do público quanto para o resto da banda.

Ruy: pra mim o que estou fazendo no Static Control é o que sempre fiz nas outras bandas das quais fiz parte. E acho que muita gente que curtia o No Violence hoje nem curte mais hardcore, estão ouvindo Foo Fighters ou Queens of The Stone Age, Skrillex, talvez.

Foto: Nathan Motta

Foto: Nathan Motta

O Static Control é uma banda que nasceu a partir de influências ou referências, uma vontade de fazer um som específico de alguma vertente do punk? Algo que não coube em outras bandas que vocês têm ou já tiveram?
Pedro: A ideia inicial era fazer aquele hardcore ultrabásico, mas com vocal cantado, de moleque, tipo os EPs e o primeiro LP do 7 Seconds e aquelas bandas californianas das coletâneas da Mystic Records, tipo Stalag 13, Justice League, Aggression, Ill Repute, etc… Ou seja, tudo muito simples e direto, tanto no som como na mensagem, sem grandes pretensões. Na altura eu e o Alemão estávamos tocando no Futuro (eu ainda estou, ele saiu), que é uma banda com um som mais louco, então a ideia era justamente fazer uma parada simples mesmo, sem pensar muito, de certa forma como a gente fazia 10 anos antes no B.U.S.H., a banda que depois virou o Futuro e que inicialmente também tocava um hardcore nessa onda americana do começo dos anos 80. Depois que o Ruy entrou ele botou o toque pessoal dele nas músicas e acabou não ficando exatamente esse cosplay que a gente queria originalmente, ainda bem!

Ruy: Eu curto cosplay.

Já que estamos numa revista de skate, qual é a relação que vocês têm ou já tiveram com o skate?
Pedro: Eu cresci andando de skate e em grande parte foi o skate que me botou no punk rock. Hoje em dia eu não ando mais muito, mas ainda penso e vejo o mundo como um skatista. Sempre que eu estou à toa fico olhando a rua imaginando linhas imaginárias que eu faria ali se andasse bem. Acho que quem anda de skate um dia fica com uma visão totalmente diferente da arquitetura da cidade. Você pega a cidade e usa ela de uma maneira ao mesmo tempo criativa e divertida, que te dá adrenalina. Ou seja, exatamente o que o punk faz com música, zines, o que for. Assim como o punk te mostra você pode usar mil coisas para se expressar, o skate faz isso com o cenário urbano. E assim como o punk, esse modus operandi gera na pessoa um sentimento antiautoritário muito forte, porque sempre vai ter alguém tentando te impedir de estar ali e fazer o que você tem que fazer, mas você vai fazer assim mesmo.

Ruy: Comecei a curtir punk pelo skate, sem ele eu não seria quem eu seria. Mais magro, provavelmente.

Foto: Nathan Motta

Foto: Nathan Motta

Legal a sacada da capa da demo. Vocês são fãs do Jaime Hernandez?
Pedro: Eu particularmente sou muito, muitíssimo fã dos irmãos Hernandez. A saga do Love & Rockets é uma das coisas que eu mais gosto na vida, e há mais tempo também. Comecei a ler quando era criança, saíam umas historinhas avulsas numas revistas de HQ daqui tipo a Animal e a Circo e eu pirava. Daí saiu uma série traduzida lá para 1989, 90 e eu viciei, mas durou pouco e eu fiquei anos lendo tudo de novo. Até que em meados dos anos 90 eu descobri como comprar os álbuns gringos pelo correio e foi pegando um por um, até hoje. E descobri que é o único jeito satisfatório de ler Love & Rockets, pegando a saga mesmo, porque você entende o contexto geral das histórias e passa a conhecer as personagens como se fossem pessoas de carne e osso. Eu poderia responder a entrevista inteira só falando de Love & Rockets e ainda seria pouco para expressar meu amor, então só o que eu posso fazer é recomendar que todo mundo leia. Mas enfim, resumindo tudo, o Jaime Hernandez fez artes para vários discos que a gente gosta, de bandas como Stalag 13, Ill Repute, Aggression, Dr. Know e umas coletâneas também. Daí como era só uma demo mesmo, sem grandes pretensões, a gente roubou um quadrinho de uma história dele, botou o logo em cima e já era. Mas o vinil vai ter outra arte.

Com que outros projetos de som ou de cena vocês estão envolvidos além do Static Control?
Pedro: Eu toco no Futuro, no Modulares e comecei a tocar no B’URST recentemente. O Jay Pee toca no B’URST e tem uns outros lances começando, o Alemão acho que está só no Static Control e o Ruy certamente está só com o Static Control.

Que parada é essa dos pseudônimos que vocês estão usando lá na ficha do Bandcamp?
Pedro: Tudo besteirada, piada interna, aquela babaquice de banda. Acho que eu e o Alemão começamos com isso no compacto do B.U.S.H. em 2004, daí virou mania. Sempre tem uns pseudônimos no punk rock né? O Jack do TSOL usava um nome diferente em cada disco e tinha também uns caras de Nova York com uns apelidos engraçados, tipo sei lá, Billy Psycho, Tommy Rat, essas coisas. Enfim, os pseudônimos não são nada, é 100% bobagem mesmo.

Por Redação Tribo Skate
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