48 horas em Natal

11 de setembro de 2018 ● POR Tribo Skate

Arquivo Tribo Skate

Matéria originalmente publicada na Revista Tribo Skate 257
Texto e fotos: Fernando Gomes

A vivência de dois dias de muito skateboard na capital do Rio Grande do Norte.

É sempre gratificante e enriquecedor vivenciar o skate das cidades brasileiras que estão distantes (nem sempre geograficamente) dos centros de mercado. Quando isso é somado às belezas e energia do povo nordestino, a experiência se torna ainda mais marcante.

48 horas em Natal

Luis Marcelo, flip.

Recentemente, numa passagem rápida por Natal, capital do Rio Grande do Norte, não pude deixar de fazer aquela opção que nós skatistas frequentemente fazemos, a de trocar mergulhos na praia por horas de sessão e caminhadas nas ruas em busca de sentir um pouco do que é o skate potiguar. Foram apenas dois dias de sessão, com uma chuva forte pelo meio, mas que já foram suficientes pra sentir a disposição e registrar um pouco do muito que os skatistas locais têm pra mostrar.

48 horas em Natal

Paulo Pakito, Wallride Indy.

Natal é uma terra fértil para o skateboard! Vários picos inexplorados, grande parte deles em ladeiras que poderiam fazer da cidade a São Francisco brasileira e uma geração nova de skatistas talentosos, com aquela disposição característica de quem está acostumado a andar apenas pelo prazer de voltar as tricks e encontrar os amigos.

48 horas em Natal

Barcelona pela noite.

Porém, falta uma estrutura mínima pra que tudo isso se torne sustentável e sonhos não fiquem pelo caminho. “A cena do skate por aqui já foi mais movimentada, tinha campeonatos com mais frequência, a galera animava mais de filmar na rua. Tem muita gente que anda bem por aqui, mas não tem incentivo nenhum”, afirma Ricardo Gonçalves, um desses talentos do skate potiguar que rende até na chuva.

48 horas em Natal

Daniel Nec, Bert Slide.

A cidade nunca teve um skatepark público e o efeito colateral disso foi a união dos locais na construção de espaços pra manobrar. “Acho que a parte mais legal é que começaram a acontecer ações DIY (do it yourself/faça você mesmo) que foram crescendo e hoje tem a Barcelona, Praça do Disco, Floca, o parquinho da Zona Norte… por causa dessas iniciativas da própria comunidade”, conta Daniel Nec, skatista e artista local.

48 horas em Natal

Mateus Barros, fs tailslide

Durante as conversas nas sessões e caminhadas pelas ruas era perceptível a injeção de ânimo na galera local apenas pelo fato de algo estar acontecendo e sendo devidamente registrado. Ouvi de alguns skatistas o quanto era boa aquela sensação de sair na missão de fotografar e filmar em picos que andavam esquecidos pelas sessões cotidianas.

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Lucas Bodinho, Wallie Rocks.

Barcelona é o apelido que os skatistas deram ao oficialmente intitulado Presépio de Natal. O espaço faz parte de um complexo de três obras projetadas por Oscar Niemeyer e foi construído com o intuito de sediar apresentações culturais, esportivas e de lazer. “Já no primeiro ano, ela ficou abandonada, usada apenas como lar por alguns moradores de rua e sem iluminação”, revela Daniel.

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Ricardo Gonçalves, fs flip.

Graças ao chão liso e aos wallrides de Niemeyer, os skatistas passaram a ocupar o local, construindo obstáculos e transformando o espaço num pico clássico da cidade. Hoje também marcam presença por lá os patinadores, crianças, famílias, batalhas de rima e rodas de violão. Com muito pouco o skate transforma vidas e espaços em diversas partes do mundo.

Em Natal, bastaram um solo bom e alguns graus de inclinação nas paredes para que um ambiente abandonado pelo poder público passasse a servir de maneira mais fértil às pessoas.

Foto de capa: Ricardo Gonçalves, ollie gap.