Aláfia: Caldeirão Fervente

13 de dezembro de 2017 ● POR Tribo Skate

Em seu terceiro álbum, a banda reflete sobre questões políticas, sociais e raciais no mapa da capital paulista. SP Não é Sopa mistura poesia, funk, candomblé, eletrônica, porém exibe uma veia musical mais suja e urbana do Aláfia, de malas prontas para tocar na Europa. Conversamos com o vocalista
e guitarrista Eduardo Brechó, produtor da obra, sobre a nova fase.

Texto: Eduardo Ribeiro / Foto: Edu Pimenta

Fale sobre a ideia por trás do nome do novo álbum de vocês.
Esse disco se chama SP Não é Sopa, Na Beirada Esquenta, e o significado é isso mesmo: uma piada com a ideia de que a sopa esfria primeiro pelas beiradas. Já São Paulo não é assim: quanto mais você se afasta do Centro, mais quente, mais tenso, mais difícil ficam as coisas.

É uma metáfora, meio que falando sobre a cidade, colocando essas questões todas, a dificuldade que é viver em São Paulo. Esteticamente, ele é um pouco diferente dos outros no sentido da inclusão do ruído da cidade e de mais elementos eletrônicos. A parte eletrônica desse é mais suja. Tem loops, samples, filtros, bateria eletrônica e tal.

Como você percebe as transformações musicais na sonoridade do Aláfia de um álbum para o outro desde 2013, quando saiu o primeiro?
O primeiro disco foi mais espontâneo. Partiu do que estava aparecendo ali, com a banda se formando e tal. Estava nascendo um som. O Corpura foi de caso pensado, a banda já tinha se consolidado.

É o aprofundamento daquela sonoridade, de relacionar os ritmos de candomblé com funk e soul. SP Não é Sopa busca outras direções possíveis, pra não ficar na zona de conforto. Então, quando fomos pensar o disco, já colocamos uma direção estética.

O grupo trabalha muito bem a coisa da presença de palco, com uma expressividade bastante teatral, não?
A expressividade da banda é consciente, mas ao mesmo tempo natural. O nosso show tem esse viés teatral desde sempre.

A gente preza muito pelo show, a apresentação ao vivo. É importante que o show desperte um interesse próprio nas pessoas, para além do que elas vão encontrar no disco.

Vocês são uma banda politicamente militante?
Acho que sim, porque a nossa sociedade está se radicalizando e nós somos fruto desse processo também. É o cidadão que está ali falando, independente do artista. E é natural hoje que os cidadãos se coloquem cada vez mais.

Mas a gente também paga um preço por isso. Acho que esse álbum é um pouco mais ácido. O Corpura veio num momento feliz, de vitória do movimento. Agora, a reação é diferente, nós estamos vindo de uma derrota. Em dois anos as coisas mudaram muito. O trabalho traz essa amargura.

Você coleciona ideias de letra e música mesmo quando não está no processo de um álbum?
Às vezes vem uma ideia ou outra. Se ficar alimentando… deixar crescer, vira.

As versões das músicas no álbum são muito diversas do que fora concebido nos ensaios?
Esse álbum é bem de estúdio. Poucos ensaios. As músicas não foram feitas no estúdio, mas, os arranjos, sim.

Corpura não, tinha uma coisa mais de banda, teve ensaio pra gravar todo mundo junto… O processo todo de gravação durou uns dois meses. Os nossos discos sempre partem de um repertório já guardado, rascunhado.

Os elementos do candomblé vieram para mostrar que o Aláfia é uma banda espiritualizada?
A banda é espiritualizada, mas não religiosa. É diferente. Não tem necessidade de doutrinar ninguém, todos são bem-vindos.

Não tem dogma, a busca é coletiva. O que eu acredito não vai me separar das pessoas que têm crenças diferentes, a ideia não é essa.

Como vai ser a turnê que vocês farão agora em maio pelo Velho Continente?
Nós já saímos lá em alguns blogs, revistas e rádios, na França, na BBC da Inglaterra… Sempre tem, né?

Sempre pinta revista de world music, aí tem os festivais, na Dinamarca, em Istanbul, na Turquia, onde a gente vai tocar, junto com artistas do mundo inteiro, de milianos, Tony Allen, caras do afrobeat e tal.

Gostaria de mandar um recado pros nossos leitores?
Eu queria dar o toque pra galera escutar Gil Scott-Heron e Paulinho da Viola. Abraços!

Veja e ouça Aláfia

youtube.com/alafiaTV
soundcloud.com/alafia