Conheça a cena por trás do 1º Campeonato Feminino no Brasil

08 de março de 2019 ● POR Tribo Skate

Texto por Victoria Mazzia (@vickymazzia).

A Check it Out Zine foi uma peça chave para criação do 1º Campeonato feminino no Brasil, uma grande conquista e um marco na história do skate feminino.

O campeonato foi realizado no dia 26 de novembro de 1995 na extinta ZN Skatepark, em São Paulo. 

Contatamos Liza Grzeskowiak, fundadora da zine e uma das grandes responsáveis por liderar esse movimento, para contar um pouco sobre a história por trás dessa conquista e destacar a importância do trabalho feito por outras gerações de mulheres e que resultaram no atual cenário do skate feminino no Brasil e no mundo.

Eu trabalhava na revista Tribo Skate na parte de assinaturas e via muitas cartas com discriminação as meninas que iam nas skate shops comprar um skate ou nas pistas. Os meninos batiam e roubavam os skates de algumas meninas. Era uma coisa horrorosa.

Como eu tinha acesso a uma plataforma como a Tribo Skate, conversei com eles e com a UBS para legitimarmos o primeiro campeonato feminino de skate com a participação de alguns ídolos do skate profissional, pois assim eles influenciariam os imbecis machistas a apoiarem suas amigas, irmãs, e namoradas ao invés de discriminá-las. Era importante entender que se homens, mulheres e crianças andassem de skate juntos, isso desmarginalizaria a imagem do skate em geral.

Fiz uma carta convite pra todas as meninas assinantes da Tribo Skate que eu tinha contato e distribuí uns flyers em uns eventos anteriores ao meu.

Assim conheci a Ana Paula Negrão e a Dahabi em um evento. Elas eram de Ribeirão Preto e amaram promover o evento também trazendo mais garotas. Também foi essencial a participação das já conhecidas Giuliana Ricomini, Mirelle e Rebecca Passos (irmã de Bob Burniquist, que também prestigiou nosso evento participando do best trick).

O evento teve a participação de 15 garotas e 20 pro skaters. Entre eles, Daniel Arnoni, Nilton Neves, Márcio Tarobinha, Ari Bason, Alexandre Ribeiro, Fabio Bitão e Bob Burnquist.

A primeira intenção da zine Check It Out era a carta convite que criaria um espaço pra categoria feminina. Após esse evento publicamos uma edição a respeito desse e de outros campeonatos. Esse era o nosso principal veículo.

Nós também pedíamos a organizadores de eventos no Brasil inteiro 45 minutos de participação no evento deles, onde trazíamos a premiação, medalhas e produtos (doados por apoios). Em troca, fazíamos cobertura do evento na Check It Out e divulgaríamos o resultado na Tribo Skate e na Cemporcento.

Nós permutávamos a inclusão da categoria feminina. Fazíamos o ranking brasileiro com “award show” para motivar as meninas a evoluírem.

Nós viajamos em pelo menos cinco mulheres entre Giuliana Ricomini (São Paulo), Ana Paula Negrão (Ribeirão Preto), Dahabi (Ribeirão Preto), Patricia Moggio (Ribeirão Preto), Patricia Rezende (Goiana), Luciana Toledo (Rio de Janeiro), Patrícia Teixeira (Rio de Janeiro) e Vânia Gouveia (Rio de Janeiro).

Algumas tinham grana pra passagem, outras pegavam carona de caminhão. Mas a gente tinha um compromisso de que – com ou sem dinheiro – a gente tinha que ter pelo menos cinco de nós lá pra fazer o evento acontecer.

Com certeza na próxima cidade haveria alguma garota talentosa esperando a gente para mudar a vida de skate dela. Pagávamos as inscrições das “rookies”. Muitas meninas pelo Brasil tinham talento incrível escondido e já andavam em corrimão.

Nós dormíamos em alojamentos e no chão da casa dos outros, às vezes até embaixo das rampas dos eventos.

Mas éramos missionárias do skate feminino. Teve um ano que corremos mais de 100 eventos.

Nossos eventos favoritos eram os da Drop Dead, que fazia um evento super organizado e respeitoso para as meninas em São Caetano, onde o Paulinho, muito apoiador, colocava a gente sempre pra cima.

Lá conhecemos nossa amada falecida talentosa Luana, que foi a primeira menina dar 50-50 no corrimão.

Rodamos o Brasil inteiro.

Um dia Giuliana, Ana Paula, Luciana e eu realizamos o sonho de andar no All Girl Skate Jam em San Diego, na Califórnia.

Como a cena do skate do Brasil estava forte e com muito mais missionárias, resolvemos vir pra Califórnia tornar nossa revista global e bilíngue.

Conseguimos muito apoios, inclusive fomos distribuídas em varias bancas e em lojas renomadas, como Books Barnes and Nobles, Tower Records e Virgin Megastore.

Mas com a recessão econômica em 2007, não conseguimos mais publicar a revista. A Check It Out morreu.

Nunca paramos, simplesmente nunca fomos ressuscitadas. Aos poucos fomos esquecidas, principalmente numa era digital onde tudo é tão rápido e grande foco é o Instagram.

Tenho muito orgulho do que pude fazer pela categoria feminina. Acho que foi um marco histórico contra discriminação e de evolução.

Muitos não fazem ideia dos insultos que passamos pra que hoje em dia mulher andando de skate seja lindo. Um dia a gente contará tudo.

Feliz Dia das Mulheres. Aproveitem o que todas as pioneiras fizeram pra podermos viver em um mundo mais livre.

Temos de nos unir para divulgar o legado e conquistar mais igualdade, não só no skate, mas em geral.

Forever Girl Power.